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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Escreveu textão a respeito? Então é porque manja mesmo!

Crítico da criminalização e guerra às drogas, o titular da Vara de Execução Penal do Tribunal de Justiça do Amazonas é doutor pela USP e uma referência quando o assunto é sistema penitenciário (escreveu três livros sobre o tema, além de um sobre política de drogas) e já fez inúmeras palestras a respeito.

Se dar palestra e escrever livro fosse indicador de relevância, o Bill Dembski seria biólogo respeitável. Aliás, mais adiante, a "referência" ainda declara humildemente:
Minha tese é uma tese de doutorado de Direito na USP. Então é uma ciência, é uma tese aprovada com louvor, com professor alemão, espanhol na banca, em que eu defendo minhas posições jurídicas – não são posições políticas nem nada – de que os autos de prisão em flagrante por tráfico de drogas têm inúmeras nulidades. Então, quando eu analiso um auto de prisão em flagrante, analiso com base no que estudei cientificamente. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O moinho de vento da vez -- ou de como meus colegas estão perdendo a noção de proporção

Imagem adorada pelas esquerdas. Das que batem paus e flashs. (autor da imagem aqui)

Graças a um novo tipo de jornalismo engajado, tenho visto uma movimentação bem triste na minha timeline (twitter e facebook), do pessoal assustado com o que seria o avanço de uma extrema-direita. Fiquem tranquilos, ela não existe senão nos fringes onde sempre existiram. E como passaram a cobrar das 'lideranças da oposição' uma resposta, esquecendo-se contudo de acompanhar ditas respostas, juntei algumas aqui:
Reportagem da Folha de S.Paulo (com manchete mentirosa, aliás):
Questionado sobre as manifestações em favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff e o resultado das urnas, Aécio disse que os atos políticos não têm o seu apoio e são condenados pelo PSDB –especialmente os que defendem intervenção militar no país. Segundo o tucano, há pessoas "infiltradas" nos atos políticos para tentar associá-los à oposição.
(...)
Novos eventos de pedido de impeachment da presidente Dilma foram marcados nas redes sociais para o feriado de Proclamação da República, no dia 15, em São Paulo, no Rio e em Brasília. O evento está sendo convocado por dois grupos. Um deles é puxado pelo deputado federal eleito Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) e por Paulo Batista, que foi candidato a deputado estadual pelo PRP. O outro é organizado pelo empresário Marcello Reis. Ambos dizem não ser responsáveis pelos pedidos de intervenção militar na última manifestação. "Lógico que tem um grupo que quer intervenção militar, mas não somos um deles", afirmou.
Alckmin diz que não se pode 'aceitar' defesa de intervenção militar - Política - Estadão:
O governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse nesta segunda-feira, 3, que as manifestações em favor da intervenção militar, feitas no protesto de sábado na Avenida Paulista, são inaceitáveis.
Máquina de difamação petista engana até tucanos | Rodrigo Constantino - VEJA.com:
Ela diz com todas as letras que eu sou líder de uma direita que quer os militares no poder. É uma acusação muito séria. É uma calúnia, uma difamação. Eu desafio a ex-vereadora a mostrar um só indício de que eu peço intervenção militar no país hoje. Jamais defendi algo do tipo. Jamais preguei isso. E não sou líder de nada, apenas alguém apartidário que ousa pensar por conta própria e não teme a patrulha ao dizer o que pensa.
Andrea Gouvêa Vieira, não satisfeita de mentir em sua página, foi até a minha repetir que eu não a represento. Nunca tive a pretensão de representar todos. Dou voz aos meus pensamentos, que por acaso representam o de milhares de pessoas, vide as curtidas e comentários.
Defendo a democracia republicana com claros limites constitucionais ao poder Executivo e divisão de poderes, uma economia de mercado com liberdade para a iniciativa privada, o estado de direito e a propriedade privada.
Comentário de Olavo de Carvalho (Facebook):
Não peço intervenção militar nem acredito nela. (...)
Uma coisa e entender que, moralmente, os militares teriam a obrigação de intervir. Outra coisa é acreditar que eles o farão, e uma terceira coisa é pedir que o façam.
Dá prá juntar muito mais, mas não tenho muito tempo a perder com essa discussão. No fim vocês estão atacando moinhos de vento, e fico triste que vocês caiam nessa, de uma hora prá outra (OK, influenciados por repórteres sem escrúpulos). E fico um pouco puto também porque eu, que estou sem tempo e acho a discussão ridícula, tenha que gastar os três minutos necessários prá achar as declarações acima. É complicado ficar exigindo explicação de quem a gente não acompanha ou conhece -- essa é a situação perfeita pra se criar um strawman. Criacionistas são experts nessa arte. Se vocês querem saber a opinião do Huguinho ou do Zezinho, vocês terão que fazer o esforço de ler e acompanhar o Huguinho e o Zezinho (ou perder os 3 minutos, como eu fiz).

Gostaria, porém, de ver a mesma cobrança com seus ideólogos de estimação. A diferença é que, se de um lado, o PSDB e que tais logo rejeitam e desautorizam seus idiotas, as esquerdas acolhem e defendem os seus -- vide criminosos julgados, corruptos pegos no ato, exageros de manifestantes e até os discursos oficiais. Os idiotas da esquerda oferecem perigo bem mais real (por número, influência, e proximidade do poder) do que os da direita. Se você insiste em dividi-los assim.

Agora é hora de interpretações caridosas, não de homens-de-palha.
Essa é a diretiva oficial do partido, não de um extremista. Imagina a grita se um PSDB da vida comemorasse seus bandidos? (imagem daqui)

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A fofoca é real, mas publicá-la não é uma descrição objetiva da realidade.

Por isso, principalmente em ano eleitoral, cuidado com jornalismo sem apuração, sem confrontar discursos com dados.

A gente não atira no "basso":

Nada. Apenas o exercício do jornalismo. Não se pode dar uma notícia dessas na base do "parece que" ou "tudo leva a crer"... Afinal, poderia ser outro avião que caíra em Santos, tendo o de Eduardo Campos feito um pouso de emergência sabe-se lá onde.

Impossível? Muita coincidência? Mas já tínhamos exatamente isso -  uma história impossível, que estava acontecendo bem diante de nossos olhos.

Real Reporting Is About Revealing Truth; Not Granting 'Equal Weight' To Bogus Arguments | Techdirt:

Bad journalists seem to think that if someone is making a claim, you present that claim, then you present an opposing claim, and you're done. They think this is objective because they're not "picking sides." But what if one side is batshit crazy and the other is actually making legitimate claims?

 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Para os amigos, tudo. Para os inimigos, a lei.

O Centro de Tradições Nordestinas (CTN), entidade sediada em São Paulo, terá de devolver R$ 4,8 milhões aos cofres públicos em razão do mau uso do dinheiro que recebeu do Ministério da Ciência e Tecnologia, em 2006, para desenvolver um projeto no Pará. O CTN é administrado pela família Abreu, uma das donas do Hotel Saint Peter, em Brasília, novo local de trabalho do ex-ministro José Dirceu, caso ele receba a autorização da Justiça. O CTN foi fundado pelo presidente do PTN, José Masci de Abreu, e é presidido pela filha dele, Renata Abreu. A entidade e o partido têm a mesma sede administrativa, em SP. O irmão de José de Abreu, Paulo Masci de Abreu, é filiado ao PTN e aparece na sociedade do Saint Peter.
Emissora de TV do futuro chefe de Dirceu foi beneficiada pela Anatel
O futuro chefe do ex-ministro José Dirceu, o empresário Paulo de Abreu, foi beneficiado nesta semana com uma medida do governo aprovada mesmo contra relatórios elaborados por técnicos. Abreu ganhou o direito de transferir antenas da Top TV --uma de suas emissoras-- do município de Francisco Morato para a avenida Paulista, em São Paulo.
Dono do hotel Saint Peter, que contratou Dirceu sexta-feira, e de várias rádios e TVs, ele é filiado ao PTN, integrante da coligação da presidente Dilma Rousseff em 2010.
Cabe lembrar que a versão duplipensante de imparcialidade nos obriga a buscar um escândalo na oposição para cada escândalo que atinja os partidos governistas, de forma que alguma parametrização, por mais tosca que seja, os iguale. Isso explica o desespero em emplacar essa outra notícia (note os partidos envolvidos, aliás) como mais relevante, e vale até forjar headline para incluir desafetos.

Update 2013.11.29: Meu comentário acima não foi muito claro. É óbvio que esse caso do helicóptero deve ser apurado, e aliás o caso é ainda pior do que pareceu a princípio, evolvendo, como sói, grana dos pagadores de impostos. Minha crítica é tentar associar os escândalos a adversários políticos enquanto objetivamente ainda não há tal conexão. O que sobra são conjecturas e fraudes de documentos e notícias.

Alguns escândalos possuem um matiz partidário, outros não; alguns estão associados objetivamente a políticos graúdos, outros não.  Devemos criticar e exigir dureza a todos, dentro de nossas possiblidades e disposição. Ademais, há partidos mais impudicos que outros em forjar, mentir e reescrever a história; há partidos que afastam e há os que afagam seus delinquentes (exemplo1, exemplo2, exemplo3, exemplo4, exemplo5). Não podemos atribuir a mesma confiança a todos, mesmo devendo desconfiar sempre. A tal isonomia implica em não ver a cor ideológica dos meliantes -- enquanto o que temos assistido é à tentativa de pintar equitativamente os escândalos entre os partidos. Há quem antes busque a ideologia do criminoso para só então se posicionar quanto ao crime. E quando o argumento não convence, gritam "tu quoque!". A patrulha faz parte do discurso hegemônico.

E por último, dois trechos de um discurso do Lula, no 3o congresso do PT, em 2007:
"E o mais importante: nenhum petista tem que ter vergonha de defender um companheiro” 
“Ninguém tem mais autoridade moral, ética e política do que o nosso partido”.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Churnalismo contra o CM

(Hoje o assunto é mais pessoal, dado que é uma reportagem completamente irresponsável sobre o Curso de Ciências Moleculares, onde me formei e virei hominho.)

Leio, no que parece ser um dos piores casos recentes de churnalismo, a seguinte passagem:
Ele havia sido convocado a tentar entrar na "graduação secreta" da USP. Secreta porque, apesar de existir há 23 anos, a formação de ciências moleculares não aparece no manual de vestibulandos da Fuvest.
Mas aí, ao baixar o manual da FUVEST 2013 (PDF) , eis que lemos na página 79 (85a folha):

clique na imagem

Basear toda uma reportagem numa premissa falsa é ruim o suficiente. Mas os erros e deturpações deliberadas vão além. O repórter entrevista, além do coordenador do curso, apenas alunos desistentes (jubilados?) e reprovados no exame -- que obviamente terão uma visão parcial e azeda sobre o curso. Tenho certeza que esses "alunos anônimos" não existem (exceto se ele chama de "alunos" a ex-alunos desiludidos). Outras mentiras:
Um dos imbróglios era a rigidez da grade curricular. Quando Fernando se recusou a fazer uma matéria, teve de se submeter a um "tribunal" de professores. Acabou absolvido --permitiram que ele terminasse o curso.
Não há rigidez da grade: no ciclo avançado os alunos podem escolher qualquer curso, de graduação ou pós,  passando por cima dos pré-requisitos. Se o assunto foi parar na comissão (o "tribunal", que nada mais é que a reunião semestral de professores e representantes de alunos), então o que aconteceu provavelmente foi reprovação em uma matéria: a novilígua jornalística diz que o sujeito "se recusou" a realizar uma disciplina do ciclo básico.
Agregou-se à carga draconiana um desafio físico: a sala oficial está em reforma, então cada matéria é dada num prédio da USP.
 Sim, e cada matéria compreende a manhã ou a tarde -- IB, ICB ou IQ pela manhã e IME ou IF pela tarde, que não é diferente do ciclo avançado onde cada matéria é em uma unidade da USP. E que é o mesmo "desafio físico" de escolher um lugar prá almoçar.

Sem dizer que o curso não é "de elite" ou "para a elite". E que não precisa ser convidado -- no meu tempo, a professora Regina Markus ia de Instituto a Instituto, dando palestra aos bixos e falando do curso. E que sempre se pode voltar ao curso de origem sem problemas, sem traumas e sem depressão -- fora o stress legítimo que qualquer aluno passa nessa fase de sua vida. Crescer é complicado, estudar e se dedicar a qualquer curso cansa e deprime, não precisa culpar o Ciências Moleculares. Tenho vários amigos que preferiram deixar o curso -- sem stress, sem nóias e sem amargor -- e seguiram felizes como sempre foram.

Em tempo: obviamente esse post não faz parte de uma crítica generalizada à mídia -- como bem disse um amigo, a Folha não perde para grandes jornais internacionais em qualidade, e tenho jornalistas favoritos ali. Justamente por isso critico (como sempre) os maus jornalistas, para que a imagem desse veículo não seja prejudicada. Assim como na Ciência, há que defender o jornalismo inclusive dos jornalistas.

(Agradeço à lista de discussão do CM pelas informações, em especial ao BlueWhale, ao Eris e ao Bobs :)

Outras reportagens sobre o CM:
Um Nobel na USP? (Superinteressante)
Fábrica de gênios? (Cásper Líbero)
Um curso sem limites (Jornal da USP)
Vinte anos de Curso de Ciências Moleculares, minha primeira Alma Mater (Minuto de Ciência)

Atualização 2013.07.17: todos os manuais da FUVEST que eu busquei aleatoriamente tem sim informação sobre o curso, desde 1994.
Manual da FUVEST 2010 -- PDF (pág 71)
Manual da FUVEST 2007 -- PDF (pág 57)
Manual da FUVEST 2000 -- PDF (pág 64)
Manual da FUVEST 1995 (pág 4)
Manual da FUVEST 1994 (pág 5)

Atualização 2013.07.22: Alunos e professores do CCM respondem à reportagem: http://www.cecm.usp.br/carta-folha.html

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Cuba é uma grande oportunidade -- Sérgio Malbergier na Folha

Folha.com - Colunistas - Sérgio Malbergier - Cuba é uma grande oportunidade - 02/02/2012

Questionada sobre a situação dos direitos humanos na ilha, a presidenta, para desconversar, resolveu disparar contra os direitos humanos nos EUA (!), lembrando as acusações dos prisioneiros da base americana de Guantánamo, na própria ilha caribenha. (...)

Foi uma acusação gratuita aos EUA, aliado tradicional do Brasil e um dos nossos maiores parceiros comerciais, que só se justifica no campo da diplomacia emocional que privilegia ideologia em detrimento dos interesses nacionais.

A política externa tem sido o patinho feio da política brasileira. Ela tem ficado sistematicamente fora da divisão de poder e ministérios com a base, fora das grandes discussões políticas. É um grande equívoco que dá ao PT e, em menor grau, aos intelectocratas do Itamaraty um controle quase absoluto de nossas relações políticas com o exterior.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Maiores em conflito com a lei -- Eduardo Graeff no Estadão

Maiores em conflito com a lei

A função pedagógica da lei, contudo, não depende somente de bons textos. Requer bons professores: lideranças, autoridades que deem lições de integridade pelo exemplo de seus atos, mais do que palavras.

Acontece que a maioria dos exemplos vindos de cima nos últimos anos transmite a lição oposta: a de que levar vantagem à custa do erário pode ser não apenas tolerável, mas defensável, se for pelo partido, pela classe ou pela causa certos. Se figuras de proa da República dão um jeito de driblar ou torcer a lei em proveito próprio, o que esperar dos seus subordinados?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Currículo, a Constituição da educação -- artigo de João Batista Araújo Oliveira

Currículo, a Constituição da educação Estadão

O que é um currículo? Um documento que diz o que o professor deve ensinar, o que o aluno deve aprender e quando isso deve ocorrer. Em outras palavras, conteúdo, objetivos (o termo da vez é expectativas de aprendizagem), estrutura e sequência. Para que serve um currículo? Primeiro, para assegurar direitos: o currículo especifica o que o aluno deve aprender. É um instrumento de cidadania fundamental para garantir equidade e os direitos das famílias. Segundo, para estabelecer padrões, ou seja, os níveis de aprendizagem para cada etapa do ensino: atingir esses níveis é o dever, que cabe ao aluno. Terceiro, para balizar outros instrumentos da política educativa, como avaliações, formação docente e produção de livros didáticos, instrumentos essenciais em qualquer sistema escolar. Os currículos, sozinhos, não mudam a educação.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Não sei o que eles querem dizer, mas os números estão aí.

Trecho de um texto do Vladimir Safatle, cometido na Folha de SP:
Mas, vejam que engraçado, segundo a QS World University Ranking, os Departamentos de Filosofia e de Sociologia da USP estão entre os cem melhores do mundo, isso enquanto a própria universidade ocupa o 169º lugar. Ou seja, se a USP fosse como dois dos principais departamentos da FFLCH, ela seria muito mais bem avaliada.
Errado. De acordo com esse ranking a USP ocupa a posição geral 169, mas está entre as cem melhores em todas as cinco grande áreas. Como pode?
É porque um ranqueamento apenas compara os scores (maior ou menor) dos componentes. Só com o ranqueamento por disciplina não dá prá saber o ranqueamento total. Por exemplo se 3 escolas A, B e C são comparadas, e a "nota" de cada uma em português/matemática é 5/1 para A, 1/4 para B e 2/2 para C. C vai ser a segunda colocada em cada disciplina, mas a terceira no geral -- se somarmos a pontuação teremos 6 para A, 5 para B e 4 para C. E isso assumindo que todas as universidades tenham indicadores para todas as áreas (e.g. um instituto de Tecnologia pode não ter as áreas de Humanas...).

E no caso citado pelo Safatle é ainda pior porque os indicadores usados são distintos para a universidade e para cada unidade. Isso porque a avaliação depende do objetivo do ranqueamento (quais universidades são melhores para um aluno ou para um pesquisador, por exemplo), e dos dados disponíveis (por exemplo algumas unidades possuem mais informações que outras). Assim, os indicadores usados para dar "nota" aos Departamentos  são diferentes dos indicadores usados para avaliar a a USP como um todo. Nem vou entrar nos méritos do ranking em si, que sempre devemos desconfiar (no caso, eles usam muito enquetes, que avalia mais o "branding" do que a qualidade).

Há muito mais a ser criticado no texto dele, mas esse erro crasso foi o que me assustou.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Cobertura científica pelos jornais brasileiros: uma vergonha

Uma propaganda disfarçada de reportagem na Folha, intitulada "Glicemia baixa sem insulina "não é milagre", diz especialista":
"É isso mesmo... O diabetes tipo 2 tem cura", avalia de maneira serena e confiante Gabriel Cousens, autor do livro "A Cura do Diabetes pela Alimentação Viva" . Com um programa de 21 dias, o médico afirma que a vida dos pacientes que se empenharam no projeto e seguiram à risca os procedimentos foi transformada. Basta seguir a dieta elaborada por ele ao longo de anos de pesquisas, estudos e resultados mais do que satisfatórios para sentir a diferença em pouco tempo.
Ainda que tivesse cura, não é esse charlatão que teria a resposta, muito menos baseada em dietas milagrosas. Para saber sobre o perigo que esse charlatão representa (e que a Folha endossa vergonhosamente), basta ler este post do sempre atento Orac, ou este post do PalMD no Denialism Blog. Indo à página do enganador, Qpodemos saber quais são suas qualificações:
Doctor Sir Gabriel Cousens M.D., M.D.(H), D.D. (Doctor of Divinity), Diplomate of American Board of Integrative Holistic Medicine, Diplomate Ayurveda, visionary mystic, physician of the soul (...) Dr. Cousens functions as a rabbi, holistic physician, the leading live-food medical expert in the world, and according to the New York Times: "the fasting guru and detoxification expert". He is also a psychiatrist, family therapist, Ayurvedic practitioner, homeopath, acupuncturist, medical researcher, and an ecological leader.
Há alguma curanderia em que o sujeito não se ache um expert?

Isso sem falar nas clássicas reportagens "descoberto o gene disso e daquilo", publicações dúbias (legítimamente publicadas mas que não se sustentam) e algumas que não estão erradas mas que contradizem outras sem haver menções entre elas. Não farei generalizações acusatórias. Posso imaginar várias situaçôes em que parece não haver opções (competir com a internet é difícil, temos prazos, não somos pagos para criticar o material, etc.), e tampouco tiro a conclusão fácil de que a grande mídia <inclua acusação ideológica aqui>. Mas devemos assumir a responsabilidade em educar e informar, ainda que nos custe mais do que a simples tradução.

A falha não está apenas em dar destaque a impostores (virar notícia, em si, já é uma vitória para eles), particularmente na seção de Ciências, mas em reproduzir bovinamente todas as mentiras sem nenhuma tentativa de contestação. E não é o único exemplo da Folha de SP sendo incapaz de reproduzir uma reportagem criticamente.

Leilão na Suíça vende pele do abominável homem das neves:
O abominável homem das neves está na Suíça, ou ao menos uma parte dele, já que uma estranha pele durante anos atribuída ao temível Yeti foi vendida nesta quarta-feira em Genebra por cerca de 12 mil euros.
'Menino magnético' fica famoso na Croácia por atrair metais:
Um menino croata de apenas seis anos de idade parece ter a capacidade de atrair objetos metálicos, como se fosse um super-herói dos quadrinhos.(...) Além de seus supostos poderes magnéticos, Ivan também teria uma incrível capacidade de regeneração. (...) Ivan teria ainda o poder de curar outras pessoas.
Psicólogo usa biologia para ajudar ricos de 30 anos que não conseguem paquerar:
A maioria dos pacientes, em busca de apoio emocional, frequenta o lugar por um ou dois anos --uma consulta por semana a R$ 260 cada (mas diz que faz por menos se a pessoa não puder pagar). Amélio, que não gosta de ser comparado com o consultor amoroso do filme "Hitch", é também professor do Instituto de Psicologia da USP, com especial interesse em psicologia evolutiva. Seu curso "Relacionamento amoroso: teoria e pesquisa" é uma das mais disputadas em épocas de matrícula.



domingo, 3 de abril de 2011

A cada passo adiante, dois para trás

Três trechos de artigos lidos no Jornal da Ciência.

A USP reage - Editorial da Folha de São Paulo de 1⁰ de Abril:
Podem-se aventar razões benignas para o fenômeno, como a preferência por cursos mais próximos do local de moradia ou trabalho dos estudantes, agora que o acesso a faculdades privadas foi facilitado por bolsas do ProUni. Mas também é possível que a USP esteja enfrentando concorrência de outras universidades, particulares ou federais, no terreno da própria qualidade acadêmica.

A USP precisa agir com flexibilidade e inventividade para adaptar-se à nova situação. Tapar a brecha para a distorção dos treineiros piratas é só o começo.
A nova ordem científica - O Globo:
O desafio é fazer com que a experiência bem-sucedida aqui seja aplicada em outras regiões brasileiras. Há, porém, outras pedras no caminho. Uma é a que a produção científica nacional, embora continue crescendo, aos poucos tem pisado no freio. Entre 1994 e 1998, este índice cresceu a uma velocidade de 17% ao ano. De 2003 a 2008, a 5,3% anuais. (...)

O Brasil investe, atualmente, 1,6% do PIB em ciência e tecnologia. A meta é elevar este percentual para 2,5% até 2022. Este ano, no entanto, o País deu um passo para trás. O ministério responsável pela área terá um corte de R$ 1,7 bilhão em seu orçamento - sobrarão R$ 6,4 bilhões de receita.
SBPC: declaração de inconstitucionalidade das organizações sociais pode afetar produção científica - Agência Brasil:
Hoje (31), o Supremo Tribunal Federal (STF) julga ação direta de inconstitucionalidade (Adin) que questiona a legalidade das organizações sociais. A ação foi movida em 1998 pelo PT e pelo PDT, coligados em chapa que concorreu à Presidência da República nas eleições daquele ano.

De acordo com os dois partidos, o funcionamento das OS, previsto na Lei 9.637/1998, significa a privatização de atividades de competência do Estado, esvazia o controle social sobre as políticas públicas e programas executados e fere ritos da administração pública, já que os contratos de gestão das organizações sociais com órgãos públicos dispensam licitação.
As organizações sociais incluem instituições de pesquisa como o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), e o Laboratório Nacional de Luz Síncroton (LNLS).

domingo, 27 de março de 2011

Financiando a pesquisa - com burocracia e ideologia

Trechos de algumas reportagens da semana disponíveis no Jornal da Ciência.

Um novo modelo científico para o Brasil - Andrew Simpson:
Estou convencido de que a ciência é mais bem organizada como uma meritocracia dinâmica que empodera o cientista individual. Isso geralmente se consegue quando a maior parte dos recursos disponíveis é canalizada por cientistas individuais, empregando um processo que requer renovação em intervalos regulares, baseada em revisão por pares. (...)

É fato notório que, nos EUA, muitas das universidades mais bem-sucedidas no campo da pesquisa, como Harvard, Yale e Stanford, são instituições privadas. Não vejo razão pela quais instituições igualmente prestigiosas não possam se desenvolver no Brasil.
Novo presidente da AEB diz que atraso marca ações do País - Folha de São Paulo:
O matemático Marco Antonio Raupp, novo presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), tomou posse ontem (21) dizendo que a maior marca do programa espacial brasileiro é o atraso. Ele prometeu uma revisão completa do programa ao longo do próximo mês. "A marca do nosso projeto é o atraso", afirmou.

Segundo Raupp, será discutida a possibilidade de a agência contratar empresas privadas para executarem projetos espaciais -- como os Estados Unidos fazem. "Empresas como a Embraer, que criou uma filial para defesa, têm tudo para ser integradoras", afirmou.
Decreto 7.446 invibializará a gestão das agências federais de fomento - Helena B. Nader (presidente da SBPC):
A SBPC vê com temor e extrema preocupação o decreto de 1º de março, que estabelece limites de valores e novos procedimentos para o empenho de despesas com passagens, diárias e locomoção. (...)

Da forma como foi redigido, qualquer pessoa que saia do País, com passagem paga pelo governo federal, inclusive bolsistas de pesquisa, deverá ter sua despesa autorizada previamente pelo ministro a que está subordinado. Atualmente, há cerca de 15 mil bolsistas no exterior, o que significaria que o ministro de Estado teria que dedicar boa parte de seu tempo concedendo autorizações para a renovação dessas bolsas.
Decreto assinado pela presidente Dilma reduz pela metade teto dessas despesas e preocupa cientistas - O Estado de São Paulo:
O Decreto publicado no início do mês tem causado polêmica na comunidade científica. Segundo o Estado apurou, a norma reduziu em cerca de 50% o teto das despesas com viagens de servidores federais e colaboradores eventuais e centralizou a autorização dos gastos nos ministérios. Isso prejudicaria, por exemplo, o deslocamento de professores de universidades federais para a participação em congressos e defesas de teses.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Proposta interessante de educação

Rumo na educação - artigo de Gilda Figueiredo Portugal Gouvêa no Estadão:
O Programa Escola da Família consiste em abrir as escolas nos fins de semana para atividades da comunidade (esporte, cultura e capacitação). Nessas ocasiões, alunos universitários servem como monitores, recebendo uma bolsa equivalente ao valor da mensalidade da sua faculdade. Trata-se de um bom programa, que é importante para as escolas situadas em comunidades carentes, onde são poucas as oportunidades de atividades nos fins de semana.

Na sua concepção original todas as 5.300 escolas da rede deveriam ser incluídas. Em 2007 uma avaliação constatou que em muitas escolas - especialmente as de áreas de classe média e alta - o programa não tinha o impacto esperado, pois as comunidades não compareciam. Constatou-se, portanto, a necessidade do ajuste, porque os monitores recebiam a bolsa sem que houvesse atividades nas escolas onde deveriam atuar.
E se a monitoria contar como crédito e não como bolsa? E se os universitários atuarem com os professores, e não com os alunos? Há várias alternativas (e por que não tentar todas?), e preparar melhor os alunos é muito mais eficaz que toda a discussão vazia sobre como a universidade deve absorver alunos despreparados.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Devemos nos preocupar menos com quantidade e mais com qualidade

Trechos de entrevista de Glaucius Oliva, que vai assumir a presidência do CNPq, ao Estadão:
Do ponto de vista da produção científica, temos de nos preocupar profundamente com a questão da qualidade, do impacto e da relevância das pesquisas. O Brasil não deve mais se preocupar em aumentar o número de publicações e sim em buscar qualidade, impacto e relevância. Finalmente, a internacionalização. A ciência hoje, para ter qualidade, deve ser feita em parceria com os outros cientistas do mundo, em projetos colaborativos conduzidos por equipes multinacionais. Não basta o intercâmbio de pessoas. (...)

O sistema de avaliação delineia o que vai acontecer com a ciência que é feita. Se ele valorizar o número de publicações e o fator de impacto, os pesquisadores vão publicar artigos e procurar revistas de alto impacto. Mas também é preciso introduzir no sistema de avaliação fatores que garantam a qualidade e que promovam as abordagens multidisciplinares. (...)

Os comitês acabam optando por usar uma cientometria. Jogam os números de publicações no computador, multiplicam pelo fator de impacto, relativizam pela posição do autor, dão pontos de acordo com o número de alunos que ele já orientou. Com essas fórmulas fica mais fácil. Para os 12 mil que não ganharam, você responde que foi porque tiveram menos pontos. Há uma certa objetividade, mas não é o melhor no que diz respeito à qualidade, pois se dá pouco peso à ousadia da proposta. (...)

Educação, Ciência e Tecnologia são as primeiras a sofrer cortes. E parte da culpa é nossa, dos cientistas, que ainda não encaramos como parte essencial de nossa missão acadêmica a divulgação da ciência. As pessoas ainda acham que isso é perfumaria, mas é questão de sobrevivência da ciência. É um problema cultural. Não somos treinados para fazer divulgação e não somos valorizados por fazer isso. (...)

Não se faz mais ciência naquele modelo antigo, no qual a sociedade dá o dinheiro para o cientista e o considera sábio o bastante para fazer o que quiser com esses recursos. Hoje sabemos que a sociedade tem outras demandas e o gasto do dinheiro público precisa ser muito bem justificado. A ciência precisa estar contextualizada com as demandas da sociedade. (...)

Nós, os paulistas, conquistamos a liderança porque o Estado de São Paulo, depois que perdeu a guerra de 1932, tomou uma decisão histórica e escreveu na bandeira da USP "Scientia vinces" (Vencerás pela ciência). A razão do sucesso econômico do Estado de São Paulo é justamente fruto do forte investimento que fez em ciência. A ciência venceu. E tem de continuar investindo mais que o resto do Brasil para manter a liderança. Se eu colocasse mais dinheiro do CNPq em São Paulo, o Estado deveria colocar ainda mais para continuar na frente do País. Qual Estado diz hoje que vai destinar 1% de toda a arrecadação tributária para ciência e tecnologia e cumpre? Só São Paulo. E é melhor que seja assim, pois nos dá a liderança. (...)

Penso que deveria haver um número limitado de excelentes periódicos, com apoio expressivo, linhas editoriais efetivas. Não precisamos de 7 mil revistas, como o Brasil tem hoje. Poderíamos ter 100 excelentes revistas. O grande desafio para a ciência brasileira é ter algumas boas revistas com visibilidade internacional. (...)

Uma maneira de você financiar revistas nacionais seria adotar políticas de acesso aberto. A agência faz o pagamento da pesquisa, o pesquisador paga pela publicação e o acesso a ela é aberto. Passo a dar dinheiro não só para a revista, mas para o pesquisador, e ele paga a publicação em revistas nacionais.
(via @rcalsaverini)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Excesso de governo, ignorantes diplomados e um novo começo

Dicas de editoriais do Estadão que, como sempre, recomendo a leitura completa. Discordo seriamente de algumas conclusões do prof. Goldemberg, mas ainda assim vale a leitura.

Falha de governos (Carlos Alberto Sardenberg):
Depois da crise econômica global de 2008/09, o tema "falhas de mercado" tornou-se dominante, especialmente nos países mais desenvolvidos, sobretudo nos EUA, onde funcionava de fato um mercado financeiro aberto.

No Brasil, líderes políticos, a começar por Lula, e economistas alinhados à esquerda embarcaram alegremente na onda. Mas os fatos mostram todo dia que nosso problema real está no lado contrário, nas "falhas do Estado".
O fosso entre universidade e indústria (José Goldemberg):
O IBGE divulgou recentemente os resultados de uma pesquisa realizada com as indústrias brasileiras - mais de 100 mil - para verificar quais delas investiram em inovação e quais simplesmente se restringiram a fabricar os mesmos produtos ano após ano. A pesquisa cobriu o período de 2006 a 2008. (...)

Os resultados da pesquisa são interessantes: cerca de 38% das empresas fizeram algum tipo de inovação - nos anos de 2003 a 2005 esse índice era de 34% e, portanto, aumentou. Na Alemanha, por exemplo, mais de 70% das empresas, porém, são inovadoras. Pior ainda, somente cerca de 5 mil empresas nacionais realizaram atividades internas de pesquisa e desenvolvimento. (...)

A pesquisa do IBGE nos diz ainda que, no tocante aos recursos humanos envolvidos com as atividades internas de pesquisa e desenvolvimento, havia aproximadamente 70 mil pessoas ocupadas nessa área, das quais apenas 10 mil tinham pós-graduação.
O bom início do governo Dilma ( O Estado de S. Paulo):
"Eficiência e ética são faces da mesma moeda", ensinou Dilma aos 37 membros de sua equipe. É bem verdade que ela tem no seu passivo ter dado corda a quem viria a substituí-la no comando da Casa Civil, com as consequências de todos conhecidas, a sua auxiliar mais próxima, Erenice Guerra. Foi igualmente constrangedor vê-las confraternizando na festa da posse no Planalto. Mas conceda-se à nova presidente o benefício da dúvida, tomando pelo valor de face as suas promessas - e advertências - de rigor ético.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Alguns comentários sobre jornalismo - e educação - no Brasil

O Estadão publicou agora algumas reportagens comentando um novo curso de jornalismo. Tem cara de infomercial, mas ainda assim alguns comentários são interessantes. O primeiro comentário é do Eugênio Bucci:
“Talvez a gente tenha ficado muito tempo preocupado em debater se o ensino de Jornalismo deveria ser obrigatório e esqueceu de discutir se ele é bom”, diz o coordenador da pós da ESPM, Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, doutor pela ECA-USP. “Se você vai a um dentista, advogado, médico, vai valorizar se ele dá aulas, se tem pós. Com o jornalista é a mesma coisa.”
O outro é de Roberto Civita:
No Brasil não tem endowment. Você não pode dar dinheiro para uma universidade dizendo onde gastar. Foram seis meses de trabalho até encontrar uma fórmula. Montei um instituto, que fez acordo com a escola. Tem outra complicação. No Brasil, você paga imposto para fazer qualquer doação a universidade, hospital, museu. É tratado, do ponto de vista fiscal, exatamente como uma herança. (...)

Nos Estados Unidos, quanto mais você doar, maior o crédito no Imposto de Renda. No Brasil, é tudo complicado. Deveríamos mudar a legislação.
Há também esse artigo do Gustavo Chacra (que tem um blog no Estadão):
Um “cientista que saiba escrever” é melhor do que “um jornalista que entenda de ciência”, como na provocação lançada pela revista The Economist? A diretora da escola de Jornalismo da Universidade Columbia, Perri Klass, prefere a cautela: depende do caso. “Muitas das melhores reportagens de ciência que li foram escritas por repórteres que não tinham uma formação específica sobre a área que estavam escrevendo.” Perri sabe do que está falando. É colunista do New York Times, mas se formou em Medicina na Universidade Harvard antes de migrar para o Jornalismo.

Nos Estados Unidos, as principais escolas têm foco na pós-graduação de Jornalismo, e não na graduação. Em geral, os alunos estudam em outras áreas antes da formação específica. Existe graduação em Jornalismo no país, mas a formação costuma ser paralela, com o estudante cursando Jornalismo e Ciência Política, por exemplo.
E uma entrevista com Carlos Eduardo Lins da Silva:
A [cultura] brasileira é mais do jeitinho, do improviso. E lá, se você pudesse dizer como é o americano, ele é mais organizado, mais metódico. O brasileiro é o oposto disso. Só por isso você já sente lá nas redações, há muito tempo, uma preocupação com esse tipo de problema gerencial, administrativo, que até hoje não existe muito aqui, embora tenha mais do que há 25 anos. Segundo: a produção acadêmica lá é muito mais refinada, sofisticada, do que aqui. E um grupo, embora pequeno, desses estudos se dedica a isso, a técnicas de gerenciamento de redação. Então você tem já uma bibliografia acumulada que te permite fazer generalizações com mais segurança.


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Lula, na reta final

Os 10 piores momentos de Lula | OrdemLivre, 21/10/2010:
Nenhuma economia atual é totalmente livre nem totalmente estatizada. Impera em todos os países do mundo o intervencionismo, uma mistura de estado e mercado na economia. No entanto, sempre que o intervencionismo entra em crise, a culpa cai sobre o mercado. Ao Estado só cabe o papel de salvador da pátria. Quando defende essa dicotomia falsa, o presidente Lula colabora para que o desenvolvimento econômico brasileiro continue engatinhando. A evidência é clara: quanto mais estado, menor crescimento econômico.

A grande recessão de 2008 foi resultado de bancos centrais do mundo inteiro adotando políticas de crédito barato, o que descola o investimento privado da poupança real, e leva investidores a financiar projetos que só existem por causa dos juros artificiais do governo. Isso quando o governo não favorece certos projetos deliberadamente, como as políticas imobiliárias americanas.

O livre mercado, por definição, nega a intervenção do estado. Mas quem foi que disse que o mercado brasileiro quer ser livre? Pelo contrário, o Brasil tem uma tradição de chocadeira protecionista. As empresas escolhidas pelo governo são amamentadas com o crédito do BNDES, protegidas da competição externa por meio de tarifas e da interna por políticas de antitruste. Se enfraquecerem, levam uma injeção de subsídio e se quebrarem suas dívidas serão relativizadas.
Esse é apenas um dos momentos elegidos; há outros também, como a defesa não dos países, mas dos ditadores da Venezuela, Cuba e Irã. Há também uma cobertura interessante na The Economist (gracias, Daniel). Seguem os links abaixo.

Brazil's presidential election: Better late than never? (21/10/2010):
In one, the polls are overstating Ms Rousseff’s lead. She has gained all she can from Lula’s support, and it was not enough. Exposed as an un-Christian flip-flopper and shorn of the momentum that came from seeming inevitability, she will see her voters melt away.
Brazil's presidential election: Lula's legacy (30/09/2010):
Lula said then that in a second term his priority would be tax, political, labour and pension reforms. These are sorely needed: the tax system is multilayered and burdensome, politics prone to corruption and gridlock, labour laws rigid and anachronistic and pensions for public employees absurdly generous. Yet none of these reforms happened, despite (or perhaps because of) Lula’s soaring popularity.(...)

In August the PMDB’s leader, Michel Temer, who will be vice-president if Ms Rousseff is elected, told party members to campaign hard for her, saying that in return they would partake in what he described as the “sharing out of the bread”.
Brazil's presidential election: Second round, second thoughts?(21/10/2010):
Ms Rousseff and the ruling Workers’ Party (PT) want the state to play a bigger role in the economy. They are especially keen on that in the oil industry, but they also want to keep lending public money to big business to create national champions. In return, in some cases, they want more influence over boardroom decisions. It is hard to see them putting a stop to the inexorable growth of the public payroll, swollen by many PT appointees, and of the tax burden required to pay for it. (...)

There are two other reasons why Brazilians would do well to favour Mr Serra. The first is that Ms Rousseff is not Lula. She lacks his extraordinary political gifts and perhaps also his innate pragmatism. By contrast, although Mr Serra may be a poor campaigner, he has been an effective minister, mayor and governor. Second, although no political party has a monopoly when it comes to corruption, there are plenty of signs that the PT has become too cosy with power. After eight years under the PT Brazil would benefit from a change at the top.


sábado, 9 de outubro de 2010

Semana de eleições no Brasil, desde o El País

Rousseff rechaza despenalizar el aborto en Brasil para no perder el voto cristiano · JUAN ARIAS - Río de Janeiro - 01/10/2010:
A 36 horas de las elecciones presidenciales brasileñas, la despenalización del aborto ha puesto en aprietos a Dilma Rousseff, la candidata propuesta por el presidente Lula da Silva. Su cambio de opinión en este tema, del que era una firme defensora, y los casos de corrupción que ha tenido que afrontar recientemente, amenazan con impedir una aplastante victoria en la primera vuelta.

Hace solo un año, la candidata del Partido de los Trabajadores era favorable a la despenalización del aborto. "Es una cuestión de salud pública", afirmó Rousseff a la revista Marie Claire. "Existe una cantidad enorme de mujeres en Brasil que mueren por abortar en circunstancias precarias".
Rousseff vuela hacia la presidencia de Brasil gracias al carisma de Lula · JUAN ARIAS - Río de Janeiro - 02/10/2010:
En la noche del jueves, ese debate, con una audiencia récord de cerca de tres millones, frustró a los 135 millones de electores, ya que los dos grandes contendientes, Dilma Rousseff, la candidata de Lula, y José Serra, el candidato más fuerte de la oposición, se ignoraron hasta el punto de no hacerse entre ellos una sola pregunta.

Ninguno de los temas candentes de la campaña: el aborto, los escándalos de corrupción en el Gobierno o las duras críticas del presidente saliente, Luiz Inácio Lula da Silva a los medios de comunicación, tres asuntos que le habían hecho perder seis millones de votos a Rousseff los últimos días, aparecieron ni una sola vez en los 100 minutos de debate.
Brasil contiene el aliento ante las elecciones de hoy · SOLEDAD GALLEGO-DÍAZ / JUAN ARIAS - Brasilia - 02/10/201:
Esa indefinida impresión de sentirse bien es la que hace que Lula deje la presidencia (no puede presentarse a un tercer mandato) con un 80% de popularidad y que sea su candidata, Dilma Rousseff, una antigua guerrillera marxista leninista, reconvertida en economista y luego en el equivalente a su jefe de Gabinete, quien tenga todas las posibilidades de ganar. (...)

El Brasil que deja Lula se siente optimista, pero sigue teniendo graves problemas. El primero es que mas del 40% de la población esta todavía en la pobreza más absoluta y sobrevive en buena parte gracias a las pequeñas subvenciones del Plan Bolsa Familia, destinado a lograr el objetivo de Hambre Cero. El segundo problema es la necesidad de mejorar rápidamente la calidad de la educación que reciben los hijos de esa nueva clase C, seguido muy de cerca por la lucha contra la corrupción, la mejora en las infraestructuras y la reforma fiscal.
Son quizás esos problemas y el convencimiento de que se ha dado con la fórmula para terminar resolviéndolos, los que han convertido el panorama brasileño es algo muy particular en América Latina: todo el espacio político esta ocupado por ofertas moderadas de centro-izquierda. La oposición que acude a las urnas esta representada por un político de larga tradición socialdemócrata, José Serra, y por una dirigente ecologista que formó parte de los gobiernos de Lula. Nadie en Brasil quiere estar ni en la derecha ni tan siquiera en el centro-derecha, lo que no quiere decir que la derecha no exista.
Victoria insuficiente de Rousseff ·SOLEDAD GALLEGO-DÍAZ / JUAN ARIAS - Brasilia - 04/10/2010:
La victoria de Dilma Rousseff en primera vuelta fue una apuesta personal mucho más de Lula que de la propia candidata o de su grupo político (PT). Lula eligió a una sucesora improbable, poco conocida, y se lanzó con todas sus fuerzas y su enorme popularidad (80%) en una campaña electoral agitada. La segunda vuelta será, sin duda, decepcionante para el presidente más popular de la historia de Brasil, que creyó poder traspasar directamente ese respaldo personal. El PT no ha conseguido tampoco imponer a sus candidatos a gobernador en So Paulo, Minas Gerais y Río, que son los tres Estados con más peso electoral del país.
Mandela sube al Corcovado · FRANCISCO G. BASTERRA - 02/10/2010:
Es cierto que Lula ha construido el despegue económico sobre las bases reformistas heredadas de su antecesor Fernando Henrique Cardoso. El ex presidente se queja de la mitificación de Lula: "Yo hice las reformas y él surfeó en la ola". Pero admite que "es un Lech Walesa que funcionó". Abandonó sus recetas izquierdistas y tuvo la sensatez de no considerar que con él comenzaba la historia. (...) El mito Lula debe recortarse con las sombras de su presidencia: la corrupción, la desigualdad en el reparto de la riqueza, el gran peso de la economía sumergida y el alto nivel de violencia. Con una política exterior desinhibida, con amigos en Teherán, La Habana y Venezuela, sin pedir permiso a Washington, ha compensado a sus bases más a la izquierda por las políticas liberales en lo económico.
Una seria administradora a la sombra de Lula · SOLEDAD GALLEGO-DÍAZ (Enviada especial) - Brasilia - 02/10/2010:
Cuando tomó posesión la llamó, para sorpresa de todos, para hacerse cargo de la cartera de Energía. Tres años después, en 2005, Dilma Rousseff fue elegida, también de forma inesperada, para ser jefe de su Casa Civil (una especie de ministerio de la Presidencia, que actúa más como centro de poder económico que político). En 2008, el mismo Lula la lanzó a la carrera presidencial como su heredera, tomando otra vez con el pie cambiado a quienes se sentían con más derecho a sucederle. (...)
Tal vez por eso contó siempre con el apoyo de Antonio Palocci, el primer ministro de Hacienda de Lula, artífice de su inesperada política de austeridad, que tuvo que salir del gobierno por un escándalo sexual y de soborno y que ahora, con Dilma como presidenta, prepara su regreso triunfal. ntre sus apoyos figura ahora también José Dirceu, a quien sustituyó, también por otro escándalo, en la Casa Civil.
Marina Silva, clave para el futuro de Brasil · SOLEDAD GALLEGO-DÍAZ / JUAN ARIAS | Brasilia - 04/10/2010:
Varios factores, según los analistas, han contribuido a aguar el sueño de Lula. Muchos de los votos que emigraron de la candidata oficial hacia Silva fueron votos de protesta por los escándalos de corrupción en la Casa Civil, que Dilma Rousseff presidió, y por los ataques de su tutor Lula contra los medios de comunicación, a los que llegó a calificar de "golpistas". (...)

Los resultados de las elecciones desmintieron también la tesis de los sondeos, según los cuales la oposición socialdemócrata, presidida por Serra, iba a acabar hecha trizas. (...)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Dois artigos no Estadão sobre os camaradas de Lula

Quanto mais Estado, mais corrupção (Carlos Alberto Sardenberg, 20/09/2010):
Aliás, basta abrir as páginas de classificados da revista The Economist: toda semana aparecem editais oferecendo vagas de diretores e presidentes de companhias públicas em diversos países, sem restrição de nacionalidade para os candidatos. O Brasil, e especialmente no governo Lula, está no lado exatamente oposto. As nomeações são politizadas, cargos repartidos na base de apoio. Isso escancara as portas do "compadrio" e da pura e simples corrupção. (...)

Um diretor nomeado pelo partido tem compromisso com o partido e com os companheiros em geral. Note-se que o presidente Lula consagrou como correta a tese de que é preciso colocar os companheiros e aliados, por critérios políticos, nos postos de governo, nas agências reguladoras e nas companhias públicas. O compromisso com o partido ou com o presidente pode ser cumprido de maneira legal, mas mesmo assim causando danos.
O desmanche da democracia (editorial, 23/09/2010):
Mas as investidas de Lula não são um raio em céu azul. Desde o escândalo do mensalão, em 2005, ele invariavelmente acusa a imprensa de difundir calúnias e infâmias contra ele e a patota toda vez que estampa evidências contundentes de corrupção e baixarias eleitorais no seu governo. (...) A apropriação deslavada dos recursos de poder do Executivo federal para fins eleitorais, a imersão total de Lula na campanha de sua afilhada e a demonização feroz dos críticos e adversários chegaram a níveis alarmantes. (...)

As invectivas contra a imprensa, por exemplo, foram a senha para o PT e os seus confederados, como a CUT, a UNE e o MST, promoverem hoje em São Paulo um "ato contra o golpismo midiático". É como classificam, cinicamente, a divulgação dos casos de negociatas, cobrança e recebimento de propinas no núcleo central do governo.

Sobre isso, nenhuma palavra - a não ser o termo "inventar", usado por Lula no seu mais recente bote contra a liberdade de imprensa que, com o habitual cinismo, ele diz considerar "sagrada". O lulismo promove a execração da mídia porque ela se recusa a tornar-se afônica e, nessa medida, talvez faça diferença nas urnas de 3 de outubro, dada a gravidade dos escândalos expostos. Sintoma da hegemonia do peleguismo nas relações entre o poder e as entidades de representação classista, o lugar escolhido para o esperado pogrom verbal da imprensa foi o Sindicato dos Jornalistas.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Pior que ser analfabeto é achar-se letrado

O e-mail do filho de Erenice comprova que, no Brasil de Lula, bandido de estimação não precisa nem ter cérebro para ficar milionário (Augusto Nunes, 14/09/2010):
É certo que Erenice aprovou o texto assinado por seu garoto. Como se apresenta como advogada, deve ter prontamente confiscada a carteirinha da OAB. Israel, que se proclama “bacharelando em direito”, deve ser devolvido ao curso primário. E todos ─ mãe, filho, parentes e agregados ─ merecem o imediato enquadramento por atentados contra a gramática, linchamento da ortografia e tentativa de assassinato da língua portuguesa.

O lado bom da coisa é que o e-mail produzido a muitas mãos já se transformou em documento histórico. Daqui a muitos anos, a leitura do amontoado de cretinices ajudará a compreender como eram as cabeças que governaram o Brasil durante a Era da Mediocridade. (...)

Só Lula, promovido a inimputável pela intelectuália companheira, pode produzir impunemente um desfile tão obsceno de frases sem pé nem cabeça, vírgulas fora de lugar, substantivos na contramão, plurais guilhotinados, adjetivos bêbados, concordâncias desatinadas e outros assombros. Todos os envolvidos na construção desse monumento à estupidez são desprovidos de raciocínio lógico. São todos incapazes de contar uma história infantil com começo, meio e fim.

Se Israel Guerra é mesmo estudante universitário, a faculdade que frequenta precisa ser lacrada antes que recrute outro lote de analfabetos funcionais.


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