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sábado, 24 de agosto de 2013

Ainda os médicos cubanos

Eu já havia comentado mês passado sobre as condições análogas às de escravo a que seriam submetidos os médicos cubanos no Brasil. Para refrescar a memória, recomendo ler o post mais uma vez. Agora que o governo resolveu levar a cabo esse absurdo, coleto mais alguns links abaixo. Mais absurdo ainda são os ditos liberais/progressistas que se calam frente a esse acordo, dizendo "ah, mas precisamos de médicos" -- como quem diz, "ah, mas precisamos de roupas baratas" ou "ah, mas precisamos de cana". Um exemplo da ginástica pode ser lido aqui e aqui. Parabéns por defenderem o simulacro de capitalismo selvagem que alhures atacam! É absurda também qualquer discriminação pessoal quanto aos estrangeiros -- já basta a que os governos lhes impõem. Seguem os links (com destaques meus em negrito):

Durante missão na Bolívia, médicos cubanos seguiram cartilha ditatorial

Dividido em onze capítulos, o grau de detalhamento do Regulamento Disciplinador chegava ao nível de dizer o que os cubanos deveriam fazer caso começassem algum relacionamento amoroso com uma nativa. A título de curiosidade: obrigava os cubanos a informar às autoridades o relacionamento. Além disso, a parceira deveria estar ciente do pensamento revolucionário das missões cubanas — e concordar com ele.

Os profissionais também estavam proibidos de sair de casa após às 18 horas sem autorização prévia do chefe imediato. Para conseguir o aval, eles deveriam informar aonde iam, se estariam com colegas cubanos ou com nativos e qual a finalidade da saída. Os médicos eram proibidos de ingerir bebidas alcoólicas em lugares públicos, fora algumas poucas exceções: festividades cubanas, aniversários coletivos, despedidas de outros colaboradores e outros. 

De acordo com a cartilha, os cubanos não poderiam participar de atos públicos para os quais não fossem convocados. Estavam também proibidos de falar com a imprensa sem autorização prévia, de pedir dinheiro emprestado aos bolivianos e de manter amizade com outros cubanos que tivessem abandonado a missão.

Professor cubano da USP esmiúça em artigo o modelo de ‘exportação’ de médicos de Havana

Eis algumas das observações do professor (Juan López Linares, cubano naturalizado brasileiro):

1. Levando adiante o plano de importar médicos cubanos, o governo brasileiro teria de se entender com o regime de Havana, não com os profissionais. “Isso significa, na prática, que mais de 50% do salário pago pelas autoridades brasileiras” não chegaria aos bolsos dos médicos. Serviria “para alimentar a ditadura cubana.”

2. O salário mensal de um médico em Cuba, escreve o professor Juan, “não supera os R$ 100”. Por isso, eles consideram o trabalho no estrangeiro, mesmo quando prestado na África, “um sacrifício desejável.”

3. Cuba impõe aos médicos que envia ao estrangeiro um leque de suplícios baseados num vocábulo: não. Os doutores não podem viajar, não estão autorizados a participar de congressos, não podem tomar parte de movimentos políticos, não isso e não aquilo. O desrespeito às proibições sujeita os infratores a uma punição draconiana: retornar a Cuba.

4. “A experiência mostra que uma parte não desprezível dos médicos termina ‘fugindo’ dessa situação mediante o casamento com um cidadão local ou a emigração para um terceiro país”, escreveu o professor Juan.

5. Juan diz dar razão às entidades médicas brasileiras quanto à exigência de submeter os médicos cubanos ao teste de conhecimentos profissionais, o Revalida. As estatísticas do exame, informa o doutor, indicam que “somente 20% dos médicos formados em Cuba passam nas provas” –a cifra inclui os brasileiros que estudam em Havana. Gente indicada “pelos partidos políticos favoráveis ao regime dos Castros.”

PT abre pré-seleção para bolsas deMedicina em Cuba

A Secretaria de Relações Internacionais do PT está organizando o processo pré-seletivo dos bolsistas que estudarão na Escola Latino-Americana de Medicina em Cuba. Desde 1999, o governo cubano oferece estas bolsas através de várias organizações brasileiras, entre as quais o PT.  (...)

O PT lembra que este é um processo pré-seletivo. A seleção final será feita pelo governo cubano. Ou seja, a pré-seleção relaciona as pessoas que serão submetidas ao processo seletivo final caso o governo cubano realmente ofereça bolsas em 2006 e caso o número de bolsas seja equivalente ao número de pré-selecionados. Os pré-requisitos definidos por Cuba (os dois primeiros) e pelo PT (os dois últimos) para participar da pré-seleção são os seguintes:

- ter no máximo 25 anos no momento de iniciar o processo seletivo;

- ter concluído o ensino médio (ou equivalente), com obrigatoriedade das matérias de Biologia, Física e Química em todos os anos;

- ter estudado todo o período escolar em escola pública;

- ter no mínimo 2 (dois) anos de filiação partidária e apresentar carta de recomendação de instância partidária, ou seja, setorial, diretório ou comissão executiva de âmbito municipal, estadual ou nacional. Não se trata de recomendação de um membro da instância, mas sim aprovada em reunião da instância partidária.

Médicos cubanos sem direitos básicos: onde está a gritaria dos progressistas? | Construindo pensamentos

Não deixa de ser irônico notar que os mesmos progressistas que aplaudiram a legislação que estendeu às empregadas domésticas mais direitos trabalhistas agora estejam calados… Essa desenvoltura com que certa esquerda objetifica o ser humano (para poder tratá-lo não como indivíduo, mas como “instrumento da revolução”) é abjeta.

Sobre o programa Mais Médicos, do governo federal - Renato Pacca: O Globo

Vale ressaltar que a Convenção Americana Sobre Direitos Humanos, conhecida como Pacto de São José da Costa Rica, firmado em 1969 e em relação ao qual o Brasil livremente aderiu em 1992, dispõe que ninguém deve ser constrangido a executar trabalho forçado ou obrigatório, ressalvando exceções pontuais, como o serviço militar obrigatório.

Cubanos estarão sujeitos às leis trabalhistas de Cuba

Ao contrário dos demais contratados do programa Mais Médicos, os cubanos não receberão o salário integral de R$ 10 mil, mas apenas uma parte deles - entre R$ 2,4 mil e R$ 4 mil. O pagamento do Brasil é integral, mas os recursos são repassados à Opas, que paga ao governo de Cuba e esse sim repassa apenas uma parte às famílias - que ficam na ilha - e outra aos médicos em si.

Por causa da situação de contratação diferente dos cubanos, o Ministério Público do Trabalho (MPT) informou ontem que deve abrir uma ação contra a vinda os cubanos, cuja contratação estaria sendo feita de forma irregular, ferindo a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Padilha afirma que o convênio, feito através da OPAS, segue as mesmas regras dos demais feitos por Cuba com mais de 50 países.

Salário em ilha não costuma passar de R$ 100

Os profissionais enviados à Venezuela ganham cerca de R$ 550, de acordo com dados extraoficiais. Em algumas missões, eles recebem poupança na ilha comunista, mas que só pode ser retirada ao final do programa. Ao receber até 4.000 médicos de Cuba, o Brasil se torna o segundo maior "cliente" da principal fonte de divisa estrangeira da ilha, só perdendo para a Venezuela. (...)

O próprio governo admite que a "exportação de serviços médicos" é hoje a maior fonte de divisas (cerca de US$ 6 bilhões anuais), ultrapassando venda de níquel e turismo.

Médicos cubanos não terão asilo político, diz advogado-geral da União

O advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, disse nesta sexta-feira que médicos cubanos que tentem permanecer no Brasil após o final do convênio com o governo não terão direito a asilo e serão forçados a retornar a Cuba.

Questionado pela Folha sobre qual a postura que o Brasil adotaria caso médicos se recusem a voltar a Cuba, Adams disse não ver a possibilidade de asilo. "Nesse caso me parece que não teriam direito a essa pretensão. Provavelmente seriam devolvidos." Segundo o advogado-geral, que que considera "remota" a possibilidade de deserção, dificilmente o Ministério da Justiça concederia o direito de permanência.

"Todos os tratados, quando de trata de asilo, [consideram] situações que configurem ameaça por razões ordem política, de crença religiosa ou outra razão. É nesses condições que você analisa as situações de refúgio. E, nesse caso, não me parece que configuraria essa situação", disse.

A filha de Dom Pedro II aboliu o que acaba de ser restaurado por um filhote de Lula | Augusto Nunes

Para o bacharel do Planalto, portanto, nenhum cubano tem motivos para trocar a ilha natal pelo Brasil, a ditadura pela democracia, a opressão pela liberdade. “Esses médicos vêm como profissionais, eles vêm em cima de um compromisso, de um acordo, de um programa, de uma relação de trabalho”, derramou-se o chefe da AGU. Adams não vê nada de mais numa “relação de trabalho” deformada por violências repulsivas. (...)
O triunfo do absurdo se completou com a confissão de Adams. Os médicos caribenhos pertencem aos irmãos Castro. Muitos são escravos voluntários, e se engajaram com entusiasmo na missão para expandir o paraíso comunista. A maioria cumpre ordens. Os que tentarem fugir serão capturados e devolvidos aos donos. Se conseguirem enganar policiais brasileiros reduzidos a capitães-do-mato, os parentes retidos na ilha sofrerão os castigos de praxe.

domingo, 14 de julho de 2013

O que os governos não querem é dar liberdade aos profissionais

Reportagem na Folha de São Paulo, de 08/07/2013:
No modelo usado na Venezuela, Cuba funciona como uma empresa terceirizada que fornece profissionais. O governo contratante paga a Havana pelos serviços e os médicos recebem só uma parte. Apesar disso, o programa é considerado atrativo para os profissionais, que ganham cerca de US$ 40 na ilha e, com ele, têm acesso a benefícios.
O formato também é criticado por ex-participantes, que acusam o governo comunista de submetê-los a um duro regulamento disciplinar e impor regras de pagamento como poupança compulsória para evitar "deserção". A regra disciplinar na Venezuela, vigente em 2010, incluía pedir autorização para pernoitar fora do alojamento, proibição de dirigir e a obrigação de informar sobre namoros. Falar com a imprensa também estava vetado.
Na Venezuela e em outros 25 países que contratam médicos nesse regime de semi-escravidão.
Médicos cubanos en Africa generan millones
“Países exportadores de petróleo como Argelia y Angola, están pagando fuertes sumas de dinero por el personal médico cubano que trabaja en sus redes hospitalarias", afirmó Miroff. Angola paga a Cuba $5,000 dólares mensuales por cada médico que contrata, de los cuales el gobierno cubano le paga a ese profesional $500 dólares, una pequeña suma del total, pero mucho más de lo que podría ganar en la isla, destaca el reportaje.
(Leia também "Nip and tuck in" no Economist)
La odisea de los médicos cubanos que desertan a EE.UU. - WSJ.com
Datos divulgados a The Wall Street Journal bajo la Ley de Libertad de Información de EE.UU. muestran que, hasta el 16 de diciembre, los consulados de EE.UU. en 65 países han expedido 1.574 visas CMPP [Cuban Medical Professional Parole, um programa americano para refugiados cubanos]. Cuba ha estado enviando "brigadas" médicas al extranjero desde 1973 para respaldar a regímenes "revolucionarios" en países como Etiopía, Angola y Nicaragua y, quizás más importante, para ganar dinero. El diario oficial del Partido Comunista cubano, Granma, informó en junio que Cuba tenía 37.041 doctores y otros profesionales de la salud en 77 países. Las estimaciones sobre lo que gana Cuba con sus equipos médicos —ingresos que el banco central de Cuba considera "exportaciones de servicios"— difieren ampliamente, llegando hasta los US$8.000 millones anuales. (...) 
El disidente de 41 años afirma que en el programa abunda la corrupción. "Se sabe que para entrar en los mejores países —estamos hablando de Sudáfrica, Brasil— hay funcionarios que reciben dinero bajo la mesa. Cuesta entre US$500 y US$1.000", afirma.
(tremei, imperialistas!)
Território Eldorado :: Notícias :: Medidas do Mais Médicos são 'emergenciais', diz Padilha
Na falta desses profissionais para o preenchimento das vagas, a pasta vai buscar médicos formados no exterior - sem a revalidação do diploma. "Se houver a revalidação do diploma, o médico estrangeiro poderá atuar em qualquer localidade do país. E não é isso que queremos. Queremos que o médico atue nas áreas carentes", justificou.
Tendo a preferir médicos que passaram por crivos de qualidade -- contra Hélio Schwartsman que defende uma política de governo que prefereria contratar mecânicos a não contratar ninguém [1]. Porém, independentemente da opinião acerca da revalidação dos diplomas, a fala de Padilha deixa clara a arbitrariedade na concessão de direitos aos profissionais de saúde. Tratar os estrangeiros como cidadãos de segunda classe vai além de alinhamento ideológico. Uma solução que seja satisfatória para os médicos estrangeiros e para as comunidades carentes não é tão simples, e é muita ligeireza atacar a todos que se opõem à prática (e não ao discurso, sempre perfeito até quando defende idéias antitéticas) governamental. Mesmo que todos os corporativistas fossem contra, isso não quer dizer que quem seja contra é corporativista.

Fonte: FSP

[1] Aliás, não há motivos para crer que os médicos cubanos não sejam competentes -- eles devem ser especialistas em trabalhar em condições precárias. Meu comentário não é sobre isso. Mas o argumento de que um médico ruim é melhor que nada é simplesmente idiota. Basta ver qualquer medicina alternativa e charlatões.

Atualização em 8/8: veja também http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2013/08/08/professor-cubano-da-usp-esmiuca-em-artigo-o-modelo-de-exportacao-de-medicos-de-havana/

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Igualdade para os iguais

Encanador da Câmara Municipal de São Paulo ganha R$ 11 mil mensais - Estadão

Funcionários de nível básico contratados pela Câmara Municipal de São Paulo ganham salários mais de dez vezes maiores do que se paga no mercado para recém-contratados. Um encanador lotado no departamento de Zeladoria da Casa tem salário de R$ 11 mil. Um chaveiro, da mesma seção, recebe R$ 10,9 mil todo mês. E até um operador de máquina copiadora, outro cargo que exige apenas ensino fundamental para a contratação, ganha R$ 9,3 mil mensais. (...)
No total, a Câmara tem 662 funcionários concursados e 1.196 que ocupam cargos em comissão - ou seja, podem ser livremente nomeados por vereadores ou pela Mesa Diretora.

sábado, 11 de agosto de 2012

Cotas aprovadas, problema resolvido.

Os destaques em negrito são meus.
Opiniões expressas em diversos jornais e compiladas pelo Jornal da Ciência:
Se o Estado determina que toda a população tem que ter acesso à educação, precisa agir nesse sentido. Menos de 20% dos jovens de 18 a 24 anos estão no ensino superior. Obrigar quem já tem dificuldades de se manter a resolver esse problema com medida paliativa é absurdo. (Renato Pedrosa) (...)
Creio na pertinência das cotas em universidades públicas, mas elas devem ser sociais, com critérios econômicos bem estabelecidos. Uma política afirmativa nesse formato traria o mesmo efeito prático e sem criar esse tipo de cisão étnica que não é uma medida pedagógica correta. Se a ideia é facilitar a integração, criar esses nichos pode acirrar ainda mais a discriminação. (Nina Ranieri)
Críticas à lei de cotas por ferir autonomia de universidades federais -- Jornal da Ciência:
Na avaliação da diretora executiva da organização Todos Pela Educação, Priscila Cruz, o sistema de cotas só existe porque a educação básica pública não é de qualidade. "Se os resultados das escolas fossem equivalentes, não precisaríamos de cotas", argumenta. Ainda assim, a especialista afirma que a medida é um mecanismo justo para oferecer oportunidades aos que não tiveram.
Universidade, autonomia e renovação, artigo de Jaime Santana e Lauro Morhy -- Jornal da Ciência
A universidade brasileira, assim como os municípios, está sob a tutela do Estado brasileiro centralizador, que nunca levou em consideração as nossas diferenças regionais e culturais, e muito menos a complexa atividade universitária. Na prática, a autonomia universitária verdadeira nunca existiu de fato, e a pouca autonomia que chegou a ser concedida, vem sendo cada vez mais subtraída.
Ensino público manda 45% dos alunos às universidades federais -- Jornal da Ciência
De acordo com o estudo "Perfil Socioeconômico e Cultural dos Estudantes de Graduação das Universidades Federais Brasileiras", concluído pelo Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (Fonaprace) em julho de 2011, 45% dos cerca de 900 mil alunos matriculados nas 59 instituições da rede de ensino superior do País vieram do ensino médio público.
Ou seja, a composição de "pobres" X "não pobres" não será afetada com a lei, mas o critério racial pode mudar a composição étnica dentro dos "pobres"...
Critérios raciais da Lei de Cotas nas universidades podem causar distorções -- Estadão
Fixar o porcentual de cotas para negros, pardos e indígenas de acordo com a proporção dessas populações nos Estados pode criar distorções na aprovação das universidades federais. Isso porque o volume de inscritos no vestibulares nem sempre tem correlação com esse porcentual. Além disso, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) possibilita que candidatos de outros Estados concorram em qualquer universidade federal do País.
O que as cotas mascaram -- editorial do Estadão
Mesmo entre os defensores da aplicação do chamado modelo de ação afirmativa na educação, para corrigir desigualdades e preconceitos impregnados na sociedade brasileira, há quem considere "descabelado" excluir do preenchimento pelo critério exclusivo do mérito uma em cada duas vagas disponíveis na rede federal de terceiro grau e escolas técnicas. (...)
O mais grave, de toda forma, é que esse tipo de favorecimento impositivo a alunos da escola pública antes escamoteia do que contribui para resolver o notório problema da baixa qualidade do ensino fundamental e médio gratuito. O benefício perpetua na prática um padrão de aprendizagem insuficiente para dar aos jovens condições razoáveis de ingresso na universidade pública, mesmo em cursos menos concorridos.
Abrir as portas da universidade para o povo -- Simon Schwartzman no Estadão
O suposto é que todas diferenças de formação desapareceriam se os alunos fossem expostos a uma educação de qualidade. Infelizmente, não há evidência de que isto seja assim, da mesma maneira de que não há evidência de que cursos de nivelamento ou reciclagem consigam superar, com facilidade, déficits de formação no uso da linguagem, de conceitos básicos de ciências e de uso de aritmética e matemática acumulados ao longo dos anos. Ao contrário, a evidência é que este tipo de nivelamento, embora não impossível, é extremamente caro e de resultados incertos.

E aqui vão alguns links mais antigos com discussão em torno das cotas (além de uma busca rápida que eu havia feito com referências acadêmicas em uma base de acesso aberto):

A questão das cotas raciais | Simon's Site
Mais adequado seria melhorar a educação para as pessoas poderem chegar à universidade e não precisarem desse tipo de ajuda. Na falta disso, poderiam ser criados cursos que preparassem melhor para as universidades, e poderiam dar ajuda financeira para quem não tem recursos, de modo a permitir que as pessoas continuem estudando.
Blog do Cristiano M. Costa: Sistema de Cotas: Solução Fácil
A má qualidade da educação básica (ensino fundamental e médio) no Brasil é a maior causadora das desigualdades de renda observadas na idade adulta.
Folha.com - Saber - Alunos com bônus por raça repetem mais na Unicamp - 28/04/2012
Levantamento feito pela Unicamp mostra que estudantes do ensino médio que receberam pontos extra no vestibular da universidade tiveram, ao final da graduação, rendimento igual ao dos demais universitários. Já pretos, pardos e indígenas que ganharam bônus adicional devido à raça auto-declarada sofreram mais com reprovação e abandono.
Universidades federais criadas na gestão Lula mantêm desigualdades -- Estadão
Em 5 das 14 novas universidades há mais ricos que pobres, em 8 a porcentagem de alunos brancos é maior que a média nacional, enquanto que a de alunos que se declararam pretos é menor que a média em 9 delas. (...) O sistema de cotas sociais e raciais, por exemplo, foi adotado por 20 universidades federais de 14 Estados. (...)
Segundo a especialista em ensino superior e professora da USP Elizabeth Balbachevsky, reforçar a qualidade da educação oferecida no ensino médio das redes estaduais e municipais é fundamental para aumentar o acesso de jovens de classes populares à universidade pública.
Cotas nas universidades: o que ainda não foi decidido e a dor de cabeça jurídica pela frente - Para Entender Direito
Mas a questão juridicamente interessante que ainda não foi respondida de forma objetiva (e que em algum momento gerará controvérsia) é qual é o limite da constitucionalidade. Em outras palavras, que tipos de cotas são inconstitucionais e quando é que uma cota inicialmente constitucional deixa de sê-lo?
Going Native - WSJ.com
Our surmise is that Warren downplayed her alleged Indian roots after coming to Harvard to avoid the stigma of "affirmative action." As Althouse points out, early in her career, "minority status" would have been useful to her advancement. But once she was on the tenure track at an Ivy League law school, she had more or less reached the pinnacle of academia. At that point, if people thought of her as white, they would assume she got the job entirely on the merits, without benefit of racial preferences.
Not all minority professors could pull that off. If Warren were black, for instance, everyone would know it, and there would be no way of escaping the stereotype. Because she is--or can pass for--white, she was in a position to have the best of both worlds, advancing through affirmative action, then enjoying the white privilege of appearing to have gotten ahead solely on the merits.
Hélio Schwartsman - Cotas e justiça - 03/05/2012
Já que a ideia é levantar alguns pontos problemáticos da política de cotas, é preciso ter em mente aqui que há um grande descompasso entre o universo de prejudicados pela injustiça histórica original (negros escravizados) e o de beneficiados pela política reparatória (alguns de seus descendentes, em geral os mais dotados e que menos precisariam de ajuda). E vale lembrar que os que pagam a conta (o branco preterido no vestibular, por exemplo) tampouco coincidem com aqueles que, no passado, lucraram com a injúria primordial (mercadores de escravos, grandes fazendeiros).
O julgamento da política de cotas raciais no STF - Renato Pacca: O Globo
Entretanto, as cotas raciais são potencialmente capazes de conferir um tratamento diferenciado a um negro rico, por exemplo, em detrimento de um branco pobre, em função de um único critério objetivo: a cor da pele. A pergunta relevante a fazer é qual o sentido de discriminar um branco pobre e privilegiar um negro rico, combatendo uma injustiça histórica com outra injustiça, agora atual?
Folha.com -- Nos EUA, cotas são ilegais, mas universidades adotam ações afirmativas - 25/04/2012
Contrariando a crença de muitas pessoas fora dos EUA, as cotas numéricas são ilegais no país (apenas "metas" não obrigatórias são adotadas por empresas com contratos federais). Mas as principais universidades levam em conta fatores qualitativos - como status de minoria ou origem socio-econômica - para escolher alguns estudantes em detrimento de outros.


E outros links de interesse, em inglês:
Preferential admissions for children of elite colleges « Statistical Modeling, Causal Inference, and Social Science
Address education inequality in India : Nature : Nature Publishing Group
The anxiety of choice versus the tyranny of others choosing for us - Matt Ridley
Merit, Not Race in College Admissions - Room for Debate - NYTimes.com
Race-Based Preferences Are Corrosive Public Policy - Room for Debate - NYTimes.com
Information Processing: Inside Duke: hurting the ones we love?
I'm Not Asian - Jesse Washington Associated Press National Writer, Race and Ethnicity
Rationally Speaking: On ethics, part VI: Egalitarianism
American Beliefs about Economic Opportunity and Income Inequality « Statistical Modeling, Causal Inference, and Social Science
Information Processing: Asian admissions in Boston Globe
Supreme Court Justice Thomas blames Yale affirmative action for his early job problems | SouthCoastToday.com (que eu traduzi parcialmente aqui)

sábado, 28 de julho de 2012

Política, religião e esporte -- tudo ao mesmo tempo agora

Folha de S.Paulo - Poder - Dilma confirma pedido ao PRB, mas diz que foi em tom de 'brincadeira' - 27/07/2012

A recomendação de Dilma ao presidente do PRB ocorreu na visita dela aos estúdios da Rede Record no Parque Olímpico, em Londres.

O próprio presidente do PRB, que participou da reunião, confirmou o teor da conversa, conforme revelou reportagem da Folha desta sexta. Pereira diz ter entendido a mensagem. "Ela fazia alusão ao encontro com Serra. Para bom entendedor, uma palavra basta", disse.

.Dilma e Edir, sorrindo (fonte: Folha de São Paulo)

Por qué un hombre no debe casarse con una mujer mayor que él >> Vientos de Brasil >> Blogs Internacional EL PAÍS

Un “hombre de Dios”, no debería casarse con una mujer mayor que él, ni tampoco con una de otra raza". Es el consejo que el Obispo evangélico y empresario Edir Macedo acaba de dar a sus ocho millones de fieles, desparramados por 170 países, en un polémico artículo, publicado en el site Arca Universal. (...)

Reo en varios procesos judiciales por blanqueo de dinero, falsedad en documentos públicos y entrada de material fraudulento para las televisiones de su propiedad, el obispo siempre acabó absuelto, dadas las influencias políticas de las que goza al ser depositario de millones de votos en las urnas.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Populismo racial e educacional -- dois artigos da Folha de São Paulo

Alfabetização na idade errada - JOÃO BATISTA ARAÚJO E OLIVEIRA - 12/07/2012

No Brasil, a pedagogia da alfabetização ficou paralisada desde a década de 1970. Jogamos fora o bebê e a água do banho. Paramos de formar professores alfabetizadores, paramos de alfabetizar as crianças, tudo em nome de uma ideologia que afirma que o aluno é um Champollion diante da pedra de Roseta, capaz de descobrir por si mesmo o código alfabético.

Tornamo-nos prisioneiros de ideias requentadas de autores há muito falecidos e que só fazem sucesso nos trópicos. A paralisia intelectual de nossos ideo-pedagogos e a opção preferencial do MEC pelo corporativismo nos trazem vultosos prejuízos.

Editorial: Populismo racial - 12/07/2012

sta Folha defende formas de ação afirmativa de critério exclusivamente socioeconômico, mas enxerga várias razões para rejeitar o PL 180 -e não só por seu componente racial. Lamenta, ainda, que haja probabilidade real de aprovação no Senado, no atual clima de populismo racialista, reforçado pelo Supremo Tribunal Federal com sua decisão de abril pela constitucionalidade das cotas.

Mesmo quem não abomine a sagração em lei da discriminação racial (ainda que positiva) perceberá outros erros colossais da proposta.

Como bem assinalam a ABC e a SBPC, ainda que a inclusão social seja um objetivo legítimo e desejável nas universidades públicas, a excelência do ensino e da pesquisa não é menos importante -e ela certamente estará em risco se metade das vagas forem atribuídas por critérios indiferentes ao mérito.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Cotas raciais - quem ganha, quem perde? -- José Goldemberg no Estadão

Cotas raciais - quem ganha, quem perde? - opiniao - versaoimpressa - Estadão

O populismo que domina muitas dessas universidades, há décadas, é a principal razão do baixo desempenho das universidades brasileiras na classificação mundial. Somente a Universidade de São Paulo (USP) conseguiu colocar-se entre as melhores 50 nesse ranking.

O problema urgente das universidades brasileiras é, portanto, melhorar de nível, e não resolver problemas de discriminação racial ou corrigir "responsabilidades históricas", que só poderão ser solucionadas por meio do progresso econômico e educacional básico.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Atualmente essa é a divisão de classes que faz sentido

Diplomata do Irã é acusado de abuso de menor - O Globo

— Constatamos que esse senhor era da missão diplomática do Irã em Brasília. Nessa condição, ele estava sob o manto da imunidade diplomática. Fizemos um registro de ocorrência. Vamos encaminhar isso ao Itamaraty. Caso fosse cidadão comum, ele estaria respondendo pelo artigo 217 A, por estupro de vulnerável, com pena de 8 a 15 anos de prisão. Seria considerado flagrante, e estaria preso — disse.

Millôr

domingo, 25 de março de 2012

SUS do B: sem pagar nada, senadores usufrem de um sistema de saúde verdadeiramente único - blog do Josias

SUS do B: sem pagar nada, senadores usufrem de um sistema de saúde verdadeiramente único - blog do Josias

O repórter Chico de Gois leva às páginas notícia sobre esse SUS dos sonhos. Sem desembolsar um mísero centavo, os senadores e seus dependentes dispõem de assistência médica pelo resto da vida. Não há carências nem limite de gastos. Basta apresentar a nota. Vale tudo, inclusive conta de dentista.

Há casos em que os reembolsos ultrapassam a casa dos R$ 100 mil anuais. Desde 2007, os ressarcimentos sorveram das arcas do Tesouro R$ 17,9 milhões. Incluindo-se os ex-senadores, a conta é engordada em R$ 72, bilhões. Salta, então, para R$ 25,1 milhões.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O qie é pior, lei inconstitucional ou orientação oficial ao seu descumprimento?

G1 - Alunos começam a cumprir 'Lei do Pai Nosso' nas escolas de Ilhéus

Apesar de a lei determinar obrigatoriedade, o diretor da unidade, José Eduardo Santos, afirma que a escola não impõe a prática diária da oração. "Nós não conduzimos, nem impomos. Fazemos, de um modo geral, por amor. Aqueles que são católicos, que creem, que confiam, participam. Aqueles que não acreditam, a gente respeita a religião de cada um", comenta.

A secretária de Educação, Lidiany Campos, relata que a administração municipal se reuniu com gestores escolares e diz que considera a oração importante. "A nossa orientação é de que não exista jamais algum tipo de pressão no sentido de obrigar o professor no cumprimento da lei", reafirma. A lei foi sancionada em dezembro do ano passado pelo prefeito Newton Lima (PT-BA).

via

Três textos sobre o caso Houaiss

A lei, a ciência e o bom-senso estão do lado do 'Houaiss' - Educação - Notícia - VEJA.com

De tempos em tempos, alguma autoridade de plantão é vencida pela tentação de tutelar a sociedade. Ela, então, tira do colete uma medida politicamente correta, que, embora nula, não raro descamba para a tentativa de censura. Foi assim em 2010, quando parecer do Conselho Nacional de Educação, órgão do Ministério da Educação, tentou banir das escolas públicas a leitura do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Segundo os sábios do MEC, trechos como o seguinte expressariam racismo: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão." Nesta segunda-feira, foi a vez do procurador federal Cléber Eustáquio Neves cair em tentação, pedindo à Justiça Federal em Uberlândia (MG) que sejam retirados de circulação as cópias do dicionário Houaiss, um dos mais conceituados do mercado. A razão: no verbete cigano, o livro informa que a palavra pode ganhar também o significado – pejorativo, como bem destaca o próprio dicionário – de "trapaceiro, velhaco, burlador".

(via @orlandotambosi)

Dicionário Houaiss censurado: o PT tem preconceito lingüístico | Implicante

Ora, tratar a gramática como instrumento de dominação elitista e obrigar todos os que trabalham com a língua a apenas registrar placidamente os usos da maioria foi exatamente o que o dicionário Houaiss fez. Ou os sinônimos pejorativos para a palavra cigano não são exatamente, como aponta o dicionário, “aquele que trapaceia, velhaco” etc? Não seria “fascismo” usar de “correção gramatical elitista” para “oprimir” quem fale algo ofensivo a ouvidos hipersensíveis, no fim das contas?

Gravatai Merengue - EXPRESSÕES POPULARES: UM IMPASSE PARA OS LINGUISTAS

Pelo pensamento da linguística, não há correto ou incorreto, e a coisa descamba até mesmo para a luta de classes. Ocorre que o “povo” (palavra usualmente empregada para designar pessoas em situação hipossuficiente) não fala apenas “nóis fumo” em vez de “nós fomos” ou “a gente vamos” em vez de “a gente vai” etc.

Esse “povo” também fala “preto”, em vez de “afrodescendente”; “bichona”, em vez de “homossexual”; “dois baitola” em vez “casal homoafetivo”; “burguês safado”, em vez de “possuidor de condições financeiras adequadas a gastos exorbitantes”. Enfim, vocês pegaram o ponto.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Cuba é uma grande oportunidade -- Sérgio Malbergier na Folha

Folha.com - Colunistas - Sérgio Malbergier - Cuba é uma grande oportunidade - 02/02/2012

Questionada sobre a situação dos direitos humanos na ilha, a presidenta, para desconversar, resolveu disparar contra os direitos humanos nos EUA (!), lembrando as acusações dos prisioneiros da base americana de Guantánamo, na própria ilha caribenha. (...)

Foi uma acusação gratuita aos EUA, aliado tradicional do Brasil e um dos nossos maiores parceiros comerciais, que só se justifica no campo da diplomacia emocional que privilegia ideologia em detrimento dos interesses nacionais.

A política externa tem sido o patinho feio da política brasileira. Ela tem ficado sistematicamente fora da divisão de poder e ministérios com a base, fora das grandes discussões políticas. É um grande equívoco que dá ao PT e, em menor grau, aos intelectocratas do Itamaraty um controle quase absoluto de nossas relações políticas com o exterior.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Apontar culpados não basta, temos que assumir responsabilidades

Muito da discussão, tempo e dinheiro gastos em reformas no ensino superior não passa de onanismo intelectual perto dos problemas enfrentados pelos ensinos fundamental e médio no Brasil. Leiam abaixo trechos do artigo "Precisamos de educação diferente de acordo com a classe social", de Gustavo Ioschpe. Eu só faria a correção que muitos dos professores de agora já são produto desse desleixo educacional.
O secretário da Educação do Rio Grande do Sul, José Clovis de Azevedo, declarou, em evento oficial em que falou como palestrante, a respeito de uma escola que tem o mais baixo Ideb de uma cidade da Grande Porto Alegre, que "o importante dessa escola não é o Ideb, mas o fato de ser uma escola inclusiva", pois recebe alunos de áreas de baixa renda etc. Essa é apenas uma manifestação mais tosca e descarada de um sentimento que você já deve ter encontrado em uma roda de conversa quando, por exemplo, alguém defende a escola de tempo integral porque tira a criança da rua ou do contato com seus amigos e familiares. (...)

Ao comentar a proposta de lei em palestra recente, Rosa afirmou ser contrária a ela, pois sua aprovação traria grande dificuldade à secretaria, que se veria atolada de pedidos de alunos de escolas ruins querendo ir para escolas boas, e também causaria grande estigma aos professores das escolas ruins. É uma visão ecoada por muita gente boa que, sempre que ouve alguma medida da área educacional, se pergunta como isso impactaria seus profissionais.  (...)

Ouvimos a todo instante sobre a necessidade de "valorizar o magistério" e "recuperar a dignidade do professor", que é um adulto, que escolheu a profissão que quis trilhar e é pago para exercê-la. Apesar de o aluno ser uma criança e de ser obrigado por lei a cursar a escola, nunca vi ninguém falando na valorização do alunado ou na recuperação de sua dignidade. (...)

Porque aquele aluno, quando sair da escola e for buscar um emprego, não vai poder dizer: "Eu não sei a tabuada, não falo inglês nem sei o que é o pretérito imperfeito, mas o senhor deveria me contratar, porque eu nasci numa favela, meu pai me abandonou quando eu tinha 2 anos". Da mesma forma, se exportarmos um produto mais caro e de menor qualidade que seus concorrentes, não poderemos esperar que o consumidor final decida comprar o nosso produto por ele conter uma etiqueta que diga: "Atenção, produto fabricado em país que só aboliu a escravidão em 1888 e foi vitimado por secular colonialismo predatório". O que importa é aquilo que o aluno aprende. É mais difícil fazer com que esse aluno, nesse contexto, aprenda o mesmo que outro de boa família? Sem dúvida! Mas o que precisamos fazer é encarar o problema e encontrar maneiras de resolvê-lo.
Antes de racionalizar sua crítica, certifique-se de que leu e entendeu o artigo inteiro. Seguem alguns trechos de artigos que li no site do professor Simon Schwartzman (vá ao site para ler os artigos, há gráficos e tabelas também).

"Sergei Soares: A importância relativa dos salários dos professores", artigo de Sergei Suarez Dillon:
Os professores da rede privada ganham em média R$ 1047 contra R$ 3320 na rede pública. Os números não são muito confiáveis por que a amostra para o DF é pequena e os professores na rede pública do DF só tem uma matrícula enquanto os da rede privada trabalham em várias escolas. Padronizando por horas trabalhadas os totais são R$ 1512 contra R$ 3378. (...)

Os professores da rede pública do DF tem de longe os maiores salários no Brasil. Já os resultados são bem medíocres – a rede pública do DF fica no IDEB (8 a série) em 2009 atrás das redes públicas do Acre, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e São Paulo – todas redes cujos salários são muito inferiores ao salário no DF.

Enquanto a discussão educacional for dominada pelo tema salário de professores, não vamos passar nem perto de temas que poderiam ter um efeito maior sobre a qualidade educacional.
"Quem quer ser professor":
Os microdados do ENEM de 2008 permitem saber responder em parte à qustão sobre quem escolhe a profissão de professor no Brasil. Dos cerca de 2.3 milhões de pessoas que fizeram a prova naquele ano, 1.7 milhões responderam à pergunta do questinonário sobre que profissão escolheram para seguir. Destes, menos de 10% disseram que queriam ser professores, e a média de seu desempenho na parte objetiva da prova foi de 37%, quase 10 pontos abaixo da média dos que preferiam os cursos de engenharia e ciências humanas.
"Ainda os salários dos professores":
Esta tabela mostra a grande vantagem salarial dos professores de instituições federais, e, no outro extremo, a baixíssima remuneração dos que trabalham em educação infantil. No ensino fundamental e médio, a renda por hora semanal trabalhada nas redes estaduais é maior do que nas escolas privadas, que se aproximam mais das redes municipais. (...)

Também não se considera aqui os benefícios de longo prazo de aposentadoria, por exemplo, que são muito maiores no setor público do que no setor particular.  Uma análise mais detalhada que toma em consideração estes benefícios adicionais foi feita por Fernando de Holanda Barbosa Filho,  Samuel de Abreu Pessoa e Luís Eduardo Afonso, disponível aqui.
E para finalizar, o artigo "Expansão do ensino superior depende de investimento na educação básica, dizem especialistas", publicado no Jornal da Ciência:
- O grande gargalo do ensino superior está no ensino básico. Corremos o risco de sofrer um apagão de capital humano e precisamos estabelecer um projeto para o Brasil para os próximos 50 anos, afirmou o professor Isaac Roitman, membro titular da Academia Brasileira de Ciências, para quem o País precisa estabelecer políticas públicas para a educação desde a etapa de zero aos três anos de idade. (...)

- Os problemas estão na formação básica dos alunos e, no caso do ensino privado, na falta de capacidade de pagamento das mensalidades, disse [o consultor educacional da Associação Brasileira de Mantenedores do Ensino Superior, Celso] Frauches, que defendeu a adoção pelo País de um Sistema Único de Educação Básica, nos mesmos moldes do Sistema Único de Saúde.

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Dô tutoria e pá, portugueis, miguxeis, é nóis.


domingo, 22 de maio de 2011

Público ou privado, culpado ou inocente, pobre ou rico

A partir de agora vou "inovar" um pouco e colocar mais links no blog, muitas vezes sem comentário algum e com pouca edição de minha parte. Na prática, os links ficarão um pouco mais difíceis de entender mas eu poderei colocar mais coisas aqui no blog. A idéia continua a mesma, a de compartilhar notícias e convidá-los a ler os artigos completos, indicados pelo link. E as linhas horizontais separando os assuntos talvez ajudem a diminuir a confusão :)

A palavra do ministro Orlando Silva não vale “nem 1 centavo” | Implicante:
Em 4 de dezembro de 2007, o ministro dos Esportes, Orlando Silva, soou enfático: “Os estádios para a Copa do Mundo serão construídos com dinheiro privado. Não haverá um centavo de dinheiro público para os estádios”. (...) De acordo com a edição online do jornal Folha de São Paulo, o Ministério dos Esportes já repassou recursos para 40 estádios brasileiros, inclusive aqueles que não receberão os jogos da Copa de 2014.
Folha.com - Esporte - Arenas-2014 valem 8 vezes os recursos anuais de habitação e o quádruplo de saneamento - 05/09/2010:
Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Mato Grosso, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Ceará e Rio Grande do Norte investirão R$ 4,831 bilhões em seus estádios. Esse dinheiro representa oito vezes o que os nove governos gastaram com habitação em 2009 --R$ 589 milhões. Ou seja, se mantiverem esse nível de investimento, os governos estaduais usarão para construir casas à população até 2014 a metade do dinheiro das arenas.

O caseiro do Piauí e a camareira da Guiné « Augusto Nunes – VEJA.com (via Diplomatizzando):
Consumado o crime em Brasília, a direção da Caixa Econômica Federal absolveu liminarmente o culpado e acusou a vítima de ter-se beneficiado de um estranho depósito no valor de R$ 30 mil. Francenildo explicou que o dinheiro fora enviado pelo pai. Por duvidar da palavra do caseiro, a Polícia Federal resolveu interrogá-lo até admitir, horas mais tarde, que o que disse desde sempre era verdade.

Consumado o crime em Nova York, a direção do hotel chamou a polícia, que ouviu o relato de Nafissatou. Confiantes na palavra da camareira, os agentes da lei descobriram o paradeiro do hóspede suspeito e conseguiram prendê-lo dois minutos antes da decolagem do avião que o levaria para Paris ─ e para a impunidade perpétua.

Folha Online - Dinheiro - Pobres pagam 44% mais impostos do que ricos - 15/05/2008:
Segundo o estudo, a carga tributária representa 22,7% da renda dos 10% mais ricos. Para os 10% mais pobres, no entanto, o peso equivale a 32,8% de sua renda.
Folha.com - Poder - Pobres pagam mais impostos que ricos, aponta Ipea - 19/05/2011:
De acordo com a pesquisa, 32% da renda dos mais pobres é convertida em pagamento de tributos. (...) Já os que ganham mais, pagam 21% de impostos do total de sua renda.
(via Implicante)


sábado, 26 de março de 2011

Ensinando sobre economia a um economista, e sobre racismo a um herói negro dos direitos civis

Estou aqui vendo a surra que Luis Fernando Silva Pinto levou ao entrevistar o professor Walter Williams, da George Mason U. Eis um trecho do comentário do repórter à entrevista, no site:
Williams é um conservador convicto. Acha que pessoas, grupos, países inteiros, têm sucesso exatamente quando enfrentam os maiores obstáculos.
Eu acho que não precisa ser conservador prá aceitar isso. E outros dois comentários do repórter, dirigidos ao professor Williams:o primeiro, de que os negros não precisariam de ações afirmativas nos esportes porque possuem uma vantagem genética, mas precisam de ações afirmativas em geral porque são economicamente desfavorecidos - ele deixa escapar uma "progressão intelectual" para comparar com a "progressão genética". O professor finge não perceber o tom condescendente da afirmação.

O segundo comentário é uma pergunta: se um negro não teve educação quando criança, nem escola de ensino médio ou uma faculdade, como pode competir? Ao que o professor responde que o que é necessário é a igualdade de oportunidades - ou seja, o problema é a falta de acesso à educação, e não se corrige isso com outra desigualdade.

E Williams ainda mostra pra ele como ações afirmativas em larga escala (o governo forçando bancos a fazer empréstimos a quem não tinha condições de devolver o dinheiro) foram responsáveis pela crise que o repórter acha ser culpa da falta de regulamentação. Ao final começa a ficar ridículo, com o repórter querendo corrigir o professor. Não se pode esperar muito de um repórter que abre o programa sugerindo que o direito à propriedade privada é algo exótico. Ou que define sua entrevista como uma "esgrima" onde seu oponente é tão inflexível quanto um muro.

Avise-me quando alguém conseguir mudar a opinião do entrevistado ao longo de uma reportagem. Mas é boa prática ao menos tentar entender o que o entrevistado está dizendo, principalmente quando o entrevistado conhece mais do que você sob todos os aspectos.

(update: entrevista disponível no Youtube, e os links acima foram modificados em abril de 2012 para refletir as mudanças no site da Globo)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Em que Vannuchi quase entende quem se opõe à "comissão da verdade"

Vannuchi: Jobim não é 'canalha', mas está equivocado (Estadão, 20 de dezembro de 2010):
O ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos reiterou hoje que o objetivo da Comissão da Verdade é encerrar um capítulo importante da história do País, com a revelação da "narrativa oficial" dos casos de tortura e desaparecimento promovidos por uma minoria no Exército brasileiro. Segundo Vannuchi, a ausência de um pedido formal de desculpas é "a mãe de todas as impunidades" persistentes no País.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Ensine como se faz, Lula! Mostra tudo!

Uma das características de uma república bananeira é a completa falta de correlação entre o que os políticos dizem e o que implementam na prática. E Lula é um mestre na arte de agradar a platéia, mesmo que tenha que defender uma idéia e seu oposto - a claque nunca questiona a incoerência. Por isso não me espantei ao ler essa declaração dele hoje, defendendo Assange:
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quinta-feira que deveria haver protesto contra a prisão de Julian Assange, proprietário do site WikiLeaks, que vem vazando documentos diplomáticos.(...)

"Vamos fazer o primeiro protesto então contra a liberdade de expressão na internet porque o rapaz estava colocando lá apenas o que ele leu. E se ele leu é porque alguém escreveu. O culpado não é quem divulgou, mas quem escreveu a bobagem. Então, que fique aqui meu protesto", afirmou o presidente.
Em uma república decente começaríamos observando a defesa de um protesto contra a liberdade de expressão - mas da boca de Lula é bonitinho, é pós-moderno. Lula também já foi avisado que a prisão de Assange não está relacionada ao seu trabalho no Wikileaks (ainda que seja legítimo questionar a coincidência).

É óbvio que Lula quer faturar politicamente com a situação (e nada fatura mais que atacar os EUA ou outras estórias David-Golias), mas ainda assim é muito estranho vê-lo descrever o trabalho de Assange como "desnudar a diplomacia, que parecia inatingível", "colocando a nu um trabalho menor que alguns embaixadores fizeram"... então por que o Brasil continua tão opaco, com uma burocracia tão cara, com tanta censura, após oito anos de luz? E por que ele critica cada vez que alguém divulga as bobagens ditas por seus companheiros? Desnude o Estado, Lula! Dispa o Brasil! Fica aqui o meu protesto.

Seguem alguns recortes de notícias em que pensava enquanto lia as declarações.

Lula: conteúdo vazado por Wikileaks é 'insignificante' (Estadão, 30/11/2010):
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva minimizou a divulgação de telegramas da diplomacia norte-americana pelo site Wikileaks, que aponta corrupção no governo brasileiro. "Eu acho que as coisas que vi são insignificantes que não merecem ser levadas a sério. Na verdade não sou obrigado a acreditar num telegrama do embaixador americano", disse Lula, em entrevista realizada depois de visitar as obras da usina hidrelétrica de Estreito, no Maranhão.
Tribunal Militar libera à Folha acesso a processo de Dilma (Folha Online, 16/11/2010):
O jornal havia protocolado no tribunal mandado de segurança para ter respeitado o direito constitucional de poder acessar os documentos. O presidente do STM, Carlos Alberto Soares, ao negar acesso, por duas vezes, alegou que queria evitar uso político dos documentos.

Em nova sessão marcada por discussões, dez ministros do tribunal votaram pela liberação do acesso. Para eles, trata-se de um "processo histórico", por isso o veto configurava censura e ia contra a liberdade de imprensa. Somente o relator do mandado de segurança, Marcos Torres, votou contra. Segundo ele, o jornal, ao consultar os documentos, iria invadir a intimidade e a privacidade da presidente eleita.
 Presidente Lula critica vazamento de informações da Polícia Federal (Folha Online, 29/05/2007):
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou na noite desta terça-feira o vazamento de informações de investigações da Polícia Federal. Durante abertura do 24º Congresso Brasileiro de Rádio Difusão, em Brasília, Lula defendeu a liberdade de imprensa e garantiu que as operações da PF continuarão.

"Nós ficaremos muito mais tranqüilos se não permitir que um processo vaze para alguém antes de ser concluído, criando uma imagem negativa da pessoa", afirmou.
Opinião de Lula sobre presos cubanos desencadeia críticas (iG, 10/03/2010):
O presidente desqualificou as greves de fome dos presos políticos cubanos e os comparou aos detentos de penitenciárias brasileiras. "Temos que respeitar a determinação da Justiça e do Governo cubanos. A greve de fome não pode ser um pretexto para libertar as pessoas. Imaginem se todos os delinquentes presos em São Paulo fizessem um jejum para pedir libertação", disse. (...)

Algo parecido ocorreu durante a visita do presidente a Cuba há duas semanas. O encontro coincidiu com a morte de Zapata, que fez uma longa greve de fome e que também havia pedido que Lula interferisse por ele. Embora tenha lamentado a morte do dissidente, Lula disse que não recebeu nenhum pedido da oposição e manteve silêncio perante o presidente cubano. Raúl Castro disse que Zapata não era mais que um "delinquente comum" e culpou os EUA pela sua morte.
Governo quer barrar divulgação dos gastos do cartão corporativo da Presidência (Folha Online, 06/02/2008):
Os ministros Dilma Rousseff (Casa Civil), Franklin Martins (Comunicação Social) e Jorge Félix (Gabinete de Segurança Institucional) afirmaram nesta quarta-feira que estão convencidos de que uma eventual CPI dos Cartões Corporativos no Congresso não pressionará o governo federal a revelar dados considerados sigilosos. Eles convocaram uma coletiva para reiterar a necessidade de manter secretas as informações que tenham como objetivo a segurança do presidente da República, do vice e de seus familiares.(...)

A crise envolvendo os cartões corporativos do governo começou no dia 23 de janeiro, quando a Folha publicou uma reportagem informando que os cartões, indicados para gastos como a compra de material, prestação de serviços e diárias de servidores em viagens, foram usados em 2007 para pagar despesas em loja de instrumentos musicais, veterinária, óticas, choperias, joalherias e em free shop.
Confecom quer ressuscitar Conselho Nacional de Jornalismo (Estadão, 16/12/2009):
A 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) decidiu ressuscitar a proposta de criação do Conselho Nacional de Jornalismo (CNJ). A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) havia tentado aprovar o CNJ durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, mas a proposta foi rechaçada sob o argumento de que era um forma de o governo controlar os meios de comunicação.
Para Palocci, PNDH erra ao propor controle da mídia (Estadão, 01/03/2010):
Único a defender a continuidade do governo Lula, com uma eventual vitória da pré-candidata do PT, ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), o deputado federal Antonio Palocci Filho (PT-SP) minimizou a importância de projetos do governo federal, como o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) e o próprio plano de governo de seu partido. "Eu não vejo necessidade de uma ação governamental junto à imprensa em defesa dos direitos humanos, porque a nossa Constituição já fala sobre isso. O jornalista ou o dono de um veículo de imprensa deve respeito à Constituição, como todo cidadão", disse Palocci. "Eu não quero condenar o PNDH, mas não concordo com a forma como foi colocada essa questão", conclui o deputado.
Dirceu: Brasil tem ‘excesso de liberdade’ de imprensa (blog do Josias de Souza, 15/09/2010):
As palavras de Dirceu não deixam dúvidas quanto à presença dele na definição dos rumos do PT e no dia-a-dia da campanha de Dilma Rousseff. Para ele, o jogo da sucessão de Lula está jogado. Acha que, sob Dilma, o PT terá mais peso do que teve nas gestões de Lula. (...) Entre as reformas que julga pendentes, listou a demcoratização dos meios de comunicação. Acha que há “excesso de liberdade” de imprensa no país, "abuso do poder de informar".
Vice-presidente do PT defende regulamentação(Estadão, 9/12/2010):
O vice-presidente nacional do PT, deputado estadual Rui Falcão (SP), disse ontem que o avanço da democracia no País acabará provocando um debate nacional sobre a necessidade de regulamentação dos meios de comunicação. (...)

"Até o Judiciário hoje tem controle externo, após muito debate. Por que o único poder sem controle, sem regulamentação, há de ser o dos meios de comunicação?", perguntou Falcão. Para o vice-presidente do PT, a falta de regulamentação acaba provocando irresponsabilidades: "Em vários países do mundo não existe liberdade de expressão como há hoje no Brasil, muitas vezes beirando a irresponsabilidade."

A mim me parece que o wikileaks é oposição (e deve ser tratado como tal). Dessas que o Lula sempre diz que atrasam o país.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ditaduras populares da América Latina

El 'Moralazo' · M. Á. Bastenier no El País de 13/10/2010:
¿Dan los votos derecho a gobernar sin limitaciones? ¿Empieza y acaba la democracia con el sufragio? Los tres gobernantes latinoamericanos que se identifican como izquierda radical parecen haber llegado a la conclusión de que el tipo de renovación/revolución que propugnan no es posible con los instrumentos propios de la democracia occidental, y, notablemente, desconfían de la libertad de expresión. El venezolano Hugo Chávez prohibió la publicación o emisión de imágenes que califica, sin entrar en detalles, de truculentas, mientras la criminalidad se dispara en su país; el ecuatoriano Rafael Correa masajea una ley de comunicación de la que la prensa no espera nada bueno; y el boliviano Evo Morales promulga una ley contra el racismo de interpretación tan libre como su soberana voluntad.


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Direita, esquerda, não são substitutos para o raciocínio

Econosheet: A esquerda mitomaníaca:
Isso não é uma classificação do que o autor acha que é direita e esquerda, é do que ele acha que são o bem e o mal. O problema é que ele é de esquerda e sofre de uma patologia comum a vários esquerdistas (e alguns direitistas): achar que aqueles que concordam com ele são os bons e que os que discordam são os maus. Quando essa idéia ganha força, o que se faz é mandar os maus pro paredão, os pensamentos deles são ruins demais pra continuar existindo. Já viram essa história antes?
(HT Claudio Shikida)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Extirpar o DEM da política ou livrar-se do PT por 30 anos

Claro que derrotar um partido sucessivamente não é a mesma coisa que eliminá-lo da política. Mas ainda que as duas expressões sejam igualmente infelizes - e a política brasileira tem mostrado uma espetacular propensão ao tu quoque mesmo quando se inova na baixaria - não é verdade que a frase de Jorge Bornhausen não foi contestada. Ela tem sido distorcida e repisada desde então, para se encaixar à narrativa que os revisionistas tentam impor (mesmo a Dilma já inventou que a frase original era "acabar com a raça"...). Seguem alguns artigos relevantes, da época.

Colunista condenado por crime de opinião (observatório da imprensa, 2/11/2006):
A expressão "raça" utilizada por ele gerou manifestações de repúdio no governo, no PT e em esferas da esquerda. Cartazes acusando o senador de racismo chegaram a ser distribuídos em Brasília. Diante da repercussão, o senador, que também é presidente do PFL, publicou um artigo no jornal Folha de S.Paulo, em 29 de setembro, em que tentava explicar o uso da expressão.
Emir, o mártir (VEJA de 22 de novembro de 2006) :
Sader escreveu um artigo no site da Agência Carta Maior, no qual chamou o senador de "racista" e "assassino", entre outras amabilidades. Bornhausen, então, o processou por injúria. No fim de outubro, o sociólogo foi condenado a um ano de detenção em regime aberto e a perder o cargo de professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Por ser réu primário, a pena foi convertida pelo próprio juiz em serviços comunitários. (...)

Como não estamos em Cuba, Sader, é claro, pode recorrer da sentença em primeira instância. Mas seus amigos e colegas de partido, para gáudio e orgulho do próprio interessado, partiram para a pressão sobre a Justiça, na tentativa de reverter a decisão no grito. Lançaram um manifesto com milhares de assinaturas e andam a escrever artigos indignados, numa prova impressionante de como essa raça tem tempo ("raça" na acepção nove do Aurélio, bem entendido, a mesma usada por Bornhausen).
Lula diz que sociólogo Emir Sader "ousou defender sua raça" (G1, 25/11/2006):
Ele foi convidado para compor a mesa dos trabalhos da reunião do Diretório Nacional da legenda que ocorre hoje. "A sociedade brasileira não pode aceitar que um cidadão se dê ao luxo de querer castigar um companheiro que ousou defender sua raça", disse Lula em discurso, ressaltando que é nas crises que se conhecem os amigos.

[Marco Aurélio] Garcia preferiu vincular a condenação de Sader ao período da ditadura militar.
Ou seja, Lula até endossou o uso do termo raça por Jorge Bornhausen (que afirmou que "a gente vai se ver livre dessa raça por pelo menos uns 30 anos" prevendo a derrota do PT em 2006 após mensalão, aloprados, etc.). Eu usaria a expressão "quadrilha", para ficar claro que se refere aos criminosos, mas tudo bem. Aliás, procurando mais informações sobre o caso, descobri como se pode usar seletivamente a popularidade para absolver políticos.

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