quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Três textos sobre o caso Houaiss

A lei, a ciência e o bom-senso estão do lado do 'Houaiss' - Educação - Notícia - VEJA.com

De tempos em tempos, alguma autoridade de plantão é vencida pela tentação de tutelar a sociedade. Ela, então, tira do colete uma medida politicamente correta, que, embora nula, não raro descamba para a tentativa de censura. Foi assim em 2010, quando parecer do Conselho Nacional de Educação, órgão do Ministério da Educação, tentou banir das escolas públicas a leitura do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Segundo os sábios do MEC, trechos como o seguinte expressariam racismo: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão." Nesta segunda-feira, foi a vez do procurador federal Cléber Eustáquio Neves cair em tentação, pedindo à Justiça Federal em Uberlândia (MG) que sejam retirados de circulação as cópias do dicionário Houaiss, um dos mais conceituados do mercado. A razão: no verbete cigano, o livro informa que a palavra pode ganhar também o significado – pejorativo, como bem destaca o próprio dicionário – de "trapaceiro, velhaco, burlador".

(via @orlandotambosi)

Dicionário Houaiss censurado: o PT tem preconceito lingüístico | Implicante

Ora, tratar a gramática como instrumento de dominação elitista e obrigar todos os que trabalham com a língua a apenas registrar placidamente os usos da maioria foi exatamente o que o dicionário Houaiss fez. Ou os sinônimos pejorativos para a palavra cigano não são exatamente, como aponta o dicionário, “aquele que trapaceia, velhaco” etc? Não seria “fascismo” usar de “correção gramatical elitista” para “oprimir” quem fale algo ofensivo a ouvidos hipersensíveis, no fim das contas?

Gravatai Merengue - EXPRESSÕES POPULARES: UM IMPASSE PARA OS LINGUISTAS

Pelo pensamento da linguística, não há correto ou incorreto, e a coisa descamba até mesmo para a luta de classes. Ocorre que o “povo” (palavra usualmente empregada para designar pessoas em situação hipossuficiente) não fala apenas “nóis fumo” em vez de “nós fomos” ou “a gente vamos” em vez de “a gente vai” etc.

Esse “povo” também fala “preto”, em vez de “afrodescendente”; “bichona”, em vez de “homossexual”; “dois baitola” em vez “casal homoafetivo”; “burguês safado”, em vez de “possuidor de condições financeiras adequadas a gastos exorbitantes”. Enfim, vocês pegaram o ponto.

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