domingo, 25 de outubro de 2009

Negadores do holocausto são um caso particular de negação da história

Em resenha extremamente positiva sobre o último livro do Richard Dawkins, o editor de Ciência da Folha de SP Claudio Angelo diz:
Depois de passar anos negando o Holocausto, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, muda-se para Nova York e inaugura um instituto de estudos históricos. Mesmo que suas aulas não discutam a 2ª Guerra, quantos judeus se inscreveriam nelas? Uma situação análoga a esse caso hipotético se aplica a Richard Dawkins e seu recém-lançado livro "The Greatest Show on Earth" ("O Maior Espetáculo da Terra").

...

Mas, como os judeus de Ahmadinejad, que criacionista compraria um livro que defende a evolução, ainda mais escrito por Richard Dawkins?
Apesar do excelente texto - e aposto que o livro do Dawkins seja realmente bom - essa comparação entre Dawkins e Ahmadinejad me incomodou muito. O próprio Dawkins compara criacionistas a "negadores da história" e assim, a analogia correta seria entre criacionistas e negadores do holocausto. E Dawkins viria como um centro internacional de estudos históricos instalando-se no Irã.

Acho que o jornalista quis seduzir os criacionistas usando uma analogia facilmente digerível - assumindo que criacionistas são contra negadores do holocausto dado seu posicionamento político - mas na prática o resultado pode ser perverso: criacionistas não são estúpidos ou ignorantes em geral, e ao perceberem o truque do jornalista verão mais um motivo para não ler o livro, da mesma forma que judeus (usando sua analogia errada) não vão se inscrever no instituto de Ahmadinejad só porque as aulas são convincentes. E Dawkins não escreve livros para criacionistas convictos - apesar desses, também, se beneficiarem de sua leitura.

Ou seja, não há conto do vigário, o que há é um autor que escreve livros de divulgação científica além de publicar sua opinião sobre a compatibilidade entre religião e ciência. É possível e até mesmo saudável concordar com ele em alguns pontos e discordar em outros. O que não é salutar é assumir seu posicionamento em uma discussão (e.g. ateísmo) para refutá-lo em outra (evolução biológica, por exemplo). Como faz o jornalista, por exemplo, ao descrever Dawkins como "defensor ferrenho da teoria evolutiva". Ele é um divulgador da teoria evolutiva e defensor ferrenho do ateísmo. A evolução não precisa ser "defendida", precisa ser divulgada e explicada. Assim como a matemática ou a física. Ou será que "anything goes"?

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Novos ídolos para a idiotia latino-americana: ditadores africanos

Trechos de entrevista de Guillaume Lacaille, do instituto International Crisis Group em reportagem do CS Monitor sobre não haver nenhum merecedor do prêmio de Mo Ibrahim:
Geralmente o que temos observado na África, e isto é preocupante, é que os líderes estão manipulando suas constituições e fraudando as eleições para serem eleitos. Via de regra, vários líderes aprenderam como preservar os símbolos da democracia sem seguir o espírito democrático, sempre no intuito de permanecer no poder.
Marian Tupy, um observador do Cato Institute, comenta no mesmo artigo:
Essa noção de "um novo amanhecer na África" foi grandemente exagerada, e agora a falta de crescimento econômico na África, e a falta de segurança em geral está alcançando os líderes africanos. Nos últimos quatro ou cinco anos, a economia global favorável ofereceu uma percepção incorreta, camuflou os problemas.
Investidores normalmente fazem um melhor juízo acerca do andamento das reformas de um país do que diplomatas. Agora que a economia global segue um caminho difícil, o dinheiro procura por lugares seguros e previsíveis por onde ir, onde a lei é obedecida, e estamos tendo uma visão panorâmica dos problemas de governança africanos.

Isso explica o interesse de alguns em apoiar ditadores africanos. Transferência de know-how.

domingo, 18 de outubro de 2009

Brincando com o google books e a hipocrisia da revista do PT

Divertido que o google books cria uma nuvem de palavras de alguns livros - acho que daqueles que o google books não tem permissão para reproduzir. Veja o resultado com a revista do PT, de vários anos:


Curioso é que o PT não disponibiliza essa revista, ou seja, tem que pagar (ou, ao menos, não achei pelos canais oficiais...). Eu esperava algo mais democrático e menos elitista. Procurando pela revista online, acabo encontrando esse comentário na sua última edição:
Iole Ilíada, diretora da Fundação Perseu Abramo, foi uma das petistas presentes à 15ª edição do Foro de São Paulo, realizada no México, e nos relata as principais discussões da esquerda em pauta na América Latina e os desafios futuros levantados no evento. Tornando mais concreto um dos debates do Foro, as possíveis eleições de candidatos do campo progressista no continente, publicamos entrevista feita pela jornalista Clarissa Pont com os uruguaios José Pepe Mujica e Danilo Astori, candidatos a presidente e vice, respectivamente, pela Frente Ampla.

Pois é, o Foro de São Paulo, que pauta os gorilas do continente.

sábado, 17 de outubro de 2009

A catraca de Muller política

Tradução de alguns trechos de reportagens do Christian Science Monitor (o nome é uma relíquia histórica, a publicação não é científica nem cristã).

O mais novo magnata da Nicaragua? O presidente "socialista" Daniel Ortega :
Os negócios obscuros de Daniel Ortega, ligados ao presidente da Venezuela Hugo Chávez, estão confundindo os limites entre o partido, o Estado e a família, dizem os críticos.

O presidente nicaraguense Daniel Ortega não fala como a maioria dos homens de negócio. É mais fácil ao ex-líder revolucionário esbravejar contra os males do "capitalismo selvagem" do que discutir seus empreendimentos multimilionários.

Porém, apesar de sua postura retórica contra o "modelo imperialista falido", Ortega e seus confidentes sandinistas mais próximos estão rápida e silenciosamente se tornando os novos senhores da economia do pobre país.

Desde seu retorno à presidência em 2007 (...) Ortega tem criado uma rede de negócios privados que operam sob os auspícios da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA), um acordo de cooperação opaco de países esquerdistas financiados em grande parte pelo presidente venezuelano Hugo Chávez.

Os "negócios da ALBA" de Ortega - conhecidos por uma sopa de letras de acrônimos, como ALBANISA, ALBALINISA e ALBACARUNA - dominaram os mercados de distribuição e importação de petróleo, tornaram-se o principal fornecedor de energia e exportador de café do país, obtiveram lucro com a venda das de ônibus russos doados, e compraram um hotel no centro de Manágua, entre outros investimentos lucrativos.

Apesar da grande sombra que paira sobre as operações comerciais advindas do segredo governamental, a luz revela lucros de centenas de milhões de dólares, apesar da recessão econômica.

Prisão de rival de Mugabe ameaça o governo de unidade do Zimbabwe :
Roy Bennett, um ex-fazendeiro de café cujas terras foram confiscadas pelo governo de Mugabe, é o tesoureiro do Movimento pela Mudança Democrática (MDC) e auxiliar de confiança do primeiro-ministro Morgan Tsvangirai, líder do partido e principal oponente doméstico de Mugabe. Quarta-feira Bennet foi mandado à prisão para ser julgado sob as acusações de terrorismo, insurgência, sabotagem e formação de quadrilha. A condenação levaria à prisão perpétua. A data para o julgamento ainda não foi definida.
(Bennet foi liberado sob fiança sexta-feira, mas a confusão continua.)


O Guantánamo de Obama, políticas anti-terror similares às de Bush? :
Após nove meses de administração Obama, os mesmos representantes de direitos humanos e liberdades civis que faziam duras críticas ao presidente Bush agora fazem críticas semelhantes à nova administração.

Apesar da retórica da Casa Branca ter diminuído o tom, interrogatórios brutos terem cessado e prisões secretas da CIA terem sido fechadas, críticos reclamam que as políticas emergentes anti-terror de Obama se parecem mais com Bush do que Obama.

A administração adotou a filosofia de lei marcial de Bush justificando a detenção indefinida de suspeitos de terror considerados pelo presidente Obama como sendo difíceis de ir a juízo porém perigosos demais para serem liberados.

Representantes do governo sugerem que Obama pode falhar em cumprir sua promessa de fechar a prisão de Guantánamo até janeiro. Uma nova versão do controverso processo de comissão militar deve emergir logo do congresso. E as construções continuam para uma nova e expandida prisão para terroristas na base aérea de Bagram, no Afeganistão.


Obs: catraca de Muller é o processo irreversível através do qual mutações deletérias vão se acumulando em populações assexuadas, sob certas condições.

sábado, 10 de outubro de 2009

Os meios determinam os fins, mas o MST finge não saber

Trechos de comentário de Renato Pacca sobre a mais recente invasão do MST:
Foi noticiado que a Polícia Civil abriu inquérito para apurar os crimes de invasão de propriedade, crime ambiental, formação de bando ou quadrilha, furto e danos ao patrimônio. Disseram que testemunhas serão ouvidas e os responsáveis responderão pelos delitos praticados.

Ocorre que o mais importante a imprensa não perguntou: Porque a Polícia não lavrou o auto de prisão em flagrante? Porque deixou os invasores abandonarem a Fazenda para depois abrir inquérito, ouvir testemunhas e começar a apurar as responsabilidades?

Ora, a prisão em flagrante delito independe de ordem judicial. O artigo 301 do Código de Processo Penal prevê que “qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes deverão prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito.”

Eis aí a diferença entre poder (qualquer um do povo pode prender) e dever (as autoridades policiais não apenas podem. Existindo flagrante delito, elas devem efetuar a prisão, sob pena de responder, pelo menos em tese, pelo crime de prevaricação).
E as decisões inócuas da Justiça:
Em sua decisão, o juiz determinou que o MST seja multado a cada dia em R$ 500, por pessoa, caso não deixe o local. Além disso, concedeu reintegração de posse à empresa.

É extremamente pertinente que o Judiciário se posicione contra as atitudes criminosas do MST, mas a multa não terá nenhuma eficácia, pois o MST não tem patrimônio e sequer existe como pessoa jurídica. É preciso reintegrar de imediato a empresa na posse, antes que o MST termine de destruir o que resta de produtivo na área. E seria interessante também identificar os líderes do movimento e responsabilizá-los criminalmente pelos atos praticados.




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