sábado, 23 de maio de 2009

Democracia boa tem, assim, a minha cara e Jezuis no coração

Trechos de Editorial do Estadão, comentando o vazio jurídico deixado pela revogação da Lei de Imprensa:
Para esses especialistas, outro grave problema causado pela revogação da Lei de Imprensa é a falta de limites para o chamado "arbitramento monetário" nos processos de indenização por danos morais. Eles receiam que oportunistas, alegando terem sido difamados e injuriados, exijam indenizações absurdas e os juízes, por falta de critérios objetivos, acabem acolhendo esses pedidos. Os especialistas também temem a prática, em larga escala, das intimidações com base na chicana jurídica de advogados, a exemplo do que aconteceu há alguns anos, quando uma determinada igreja passou a processar os jornais O Globo e Folha de S.Paulo em centenas de comarcas do interior espalhadas em todo o País.

Durante o julgamento da inconstitucionalidade da Lei de Imprensa, alguns ministros afirmaram que a decisão do STF obrigaria o Congresso a aprovar - em regime de urgência - uma lei de imprensa "nova e verdadeiramente democrática", para substituir a que foi revogada. Até agora, contudo, só dois parlamentares se dispuseram a assumir essa tarefa. E um deles, não por coincidência, é um dos dirigentes da igreja que vem se valendo da chicana jurídica para tentar intimidar jornais que eventualmente a critiquem.


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sábado, 16 de maio de 2009

Fiel cumpridor

Trechos de editorial do Estadão (do dia 12 de Maio):
A léguas de distância da imagem ronceira que exibiu quando contou à CPI do Mensalão que dinheiro do publicitário Marcos Valério serviu para pagar despesas da campanha de Lula em 2002, o rejeitado militante fez um discurso memorável ao Diretório Nacional do partido com o qual se vangloria de ter uma identidade inquebrantável. Ele de fato se mostrou um petista de corpo inteiro. "Começaria tudo outra vez, se preciso fosse", assegurou com uma franqueza inoportuna, diria Lula.

Rigorosamente fiel à interpretação lulista do ilícito conexo com o crime continuado do suborno de deputados federais - o caixa 2, disse o presidente numa famosa entrevista em Paris, é algo feito sistematicamente pelos políticos -, Delúbio perguntou à companheirada: "Do que me acusam? Quantos são os políticos brasileiros que realizaram campanhas eleitorais sem que alguma soma, por menor que fosse, não tenha sido contabilizada?" Foi aplaudido. A essa altura, nem a companheirada que o ouvia, muito menos ele próprio, se lembraria dos velhos tempos em que o petismo desfilava perante o País a sua pretensa singularidade ética, o seu repúdio cabal a todas as formas de corrupção política.


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domingo, 3 de maio de 2009

A credibilidade acadêmica e os aproveitadores

Trechos de comentário assinado por Summer Johnson em blog.bioethics.net (blog da Revista Americana de Bioética), comentando reportagem da revista The Scientist (só para assinantes) sobre uma falsa revista científica chamada "Australasian Journal of Bone and Joint Medicine" ("Revista Australasiática de Medicina Óssea e Articulatória").
The Scientist has reported that, yes, it's true, Merck cooked up a phony, but real sounding, peer reviewed journal and published favorably looking data for its products in them. Merck paid Elsevier to publish such a tome, which neither appears in MEDLINE or has a website, according to The Scientist.

What's wrong with this is so obvious it doesn't have to be argued for. What's sad is that I'm sure many a primary care physician was given literature from Merck that said, "As published in Australasian Journal of Bone and Joint Medicine, Fosamax outperforms all other medications...." Said doctor, or even the average researcher wouldn't know that the journal is bogus. In fact, knowing that the journal is published by Elsevier gives it credibility!

(...)

Such "throwaways" of non-peer reviewed publications and semi-marketing materials are commonplace in medicine. But wouldn't that seem odd for an academic journal?

(...)

If physicians would not lend their names or pens to these efforts, and publishers would not offer their presses, these publications could not exist. What doctors would have as available data would be peer-reviewed research and what pharmaceutical companies produce from their marketing departments--actual advertisements.


Tradução minha:

The Scientist noticiou que, sim, é verdade, Merck inventou uma revista revisada por pares falsa porém verossimil e publicou dados favoráveis aos seus produtos nela. A Merck pagou a Elsevier para publicar tal tomo, que não aparece no MEDLINE nem tem um website, de acordo com a The Scientist.

O que está errado aqui é tão óbvio que não necessita argumentação. O triste é que eu tenho certeza que a vários médicos foi dada a literatura da Merck dizendo "como publicado na Revista Australasiática de Medicina Óssea e Articulatória, Fosamax tem desempenho superior a outros medicamentos..." Tal doutor, ou mesmo um pesquisador mediano não saberia que a revista é uma fraude. De fato, sabendo que a revista é publicada pela Elsevier lhe dá credibilidade!

(...)

Esses "descartes" de publicações sem revisão por pares e de materiais meio marqueteiros são comuns em medicina. Mas isso não pareceria estranho em uma revista acadêmica?

(...)

Se os médicos não emprestassem seus nomes e canetas para essas iniciativas, e as editoras não oferecessem suas prensas, essas publicações não existiriam. O que os doutores teriam como dados disponíveis seriam a  pesquisa revisada por pares e o que as companhias farmacêticas produzem através de seus departamentos de marketing - propaganda real.


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A nova escravidão, mas agora por uma boa causa

Trechos de reportagem do Estadão:
Numa ação sem precedentes, grupos de luta social liderados pelo Movimento dos Sem-Terra (MST) formaram um contingente de 15 mil homens para enfrentar o latifúndio no sul e sudeste do Pará. A estimativa é baseada em números do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e dos próprios sem-terra. O recrutamento coincide com o aumento da violência no campo, segundo ouvidores do Incra. O Estado registra o maior número de conflitos fundiários do País e tem imensas extensões de terras pretendidas por possíveis beneficiários da reforma agrária.

(...)

Nas blitze, a PF tem dificuldade para encontrar armas, sempre escondidas. "Já achamos espingardas penduradas em árvore", relata o delegado.

No acampamento Helenira Resende, na Fazenda Cedro, em Marabá, os sem-terra treinam a "resistência camponesa". "A gente aprende como fazer a ocupação e resistir", conta um militante, logo advertido por outro. "Não pode falar, não." Ali ninguém se identifica. Um grupo de oito sem-terra vigia, de uma guarita improvisada, quem chega pela PA-150. Em caso de alerta, como a chegada da polícia ou estranhos, eles disparam morteiros para chamar reforço. Uma vala impede a passagem de carros - só passam as motos dos sem-terra. A entrada da imprensa é proibida. Fotos, mesmo de fora, só com autorização da liderança. Integrantes do MST bloqueiam também a entrada da Fazenda Maria Bonita, outra do grupo de Dantas.

O vaqueiro Raimundo Silva, de 62 anos, entrou meio sem querer na força-tarefa usada pelo MST para invadir a Espírito Santo, no final de fevereiro. Morador de Xinguara, ele atendeu ao chamado de um carro de som que prometia uma cesta básica por mês, mais a terra e, ainda, dinheiro para plantar. Numa mensagem gravada, o locutor dizia que o governo assentaria todas as famílias acampadas. Pai de nove filhos, a maioria "com a vida feita", ele deixou na casa a mulher e um casal de filhos menores e foi até um assentamento do MST. Na noite seguinte, estava na carroceria de um caminhão indo para a sua primeira invasão - "lá eles dizem ocupação", observa.

Quando a casa do funcionário da portaria foi atacada e os moradores obrigados a sair, Silva ficou lá atrás: "Vi criança e pensei no meu caçula de 13 anos." Silva não estava no grupo que enfrentou os seguranças da Espírito Santo, mas ouviu o tiroteio e viu as pessoas chegarem feridas. "Nosso pessoal não tinha armas, só foguetes."

Táticas de guerrilha, censura aos próprios militantes, reportagens só com autorização dos censores, e propaganda enganosa. Não se preocupe seu Raimundo, quando a lavagem cerebral terminar o senhor ganha uma espingarda. Ou o senhor ou seu filho.

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sábado, 2 de maio de 2009

Ignoratio Elenchi e os trezentos e um picaretas

Trecho de comentário de Josias de Souza:
Lula porta-se sob os holofotes como se estivesse numa mesa de bar. Dias atrás, na saída de um velório, no Recife, veio com uma conversa mole. Pôs-se a desancar o aparato de fiscalização do Estado. Disse que a vigilância, por excessiva, atrapalha o andamento das obras.

Nesta quinta (30), repetiu o lero-lero, dessa vez no Rio.

Afirmou que, submetido à sanha fiscalizatória, JK não teria feito Brasília. Pois bem, neste 1º de Maio, Lula resolveu posicionar-se sobre a “farra aérea”. Disse que há “hipocrisia” na forma como a imprensa aborda o tema. Chegou mesmo a sugerir a criação do "dia nacional da hipocrisia".

Saiu em defesa dos congressistas que se lambuzaram na cota de passagens. Admitiu que, na sua época de deputado, também cedeu bilhetes a terceiros.

"Eu, muitas vezes, convoquei dirigentes da CUT e de outras centrais para se reunirem, com passagens no meu gabinete". “Sempre foi assim. Não vejo onde está o tamanho do crime em levar a mulher ou o sindicalista para Brasília".

Na véspera, dissera algo semelhante: "Eu não sei porque vocês vendem como novidade o que acontece na Câmara... Qual é a novidade que vocês descobriram? Que um deputado utiliza passagem? Isso é utilizado desde que o Congresso é Congresso, gente".

Não saberia dizer se esse é um argumento ad populum ou ad hominem, mas me lembrou esta série de posts do Marcelo Soares.



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